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3 de fevereiro de 2013

Conteúdo para o I Bimestre_ Filosofia_ 3º ano 2013



              Colégio Estadual Colina Azul

          Disciplina: Filosofia      Profª: Ariane Marzzio

   3º série do Ensino Médio


I Bimestre

A Genealogia Moral de Nietzsche

Anderson Rodrigo Oliveira


Analisando as obras Genealogia da moral e Além do bem e do mal de Friedrich Nietzsche, detectamos alguns pontos das proveniências dos valores morais. Nietzsche ressalta a inversão sofrida por estes valores devida às oscilações nas relações de poder. Por isso, quase toda a obra girará em torno da questão do valor: o que é bom? Remete-se esta questão aos impulsos.
Como filólogo de formação, Nietzsche aprofunda-se no estudo do juízo de valor bom e, consequentemente, do juízo de valor ruim. O gênio provocativo de Nietzsche traz, assim, um texto com certo teor sarcástico. Verificamos facilmente este aspecto já na primeira das três dissertações de a Genealogia.
As questões levantadas pelos homens da época de Nietzsche, em especial pelos psicólogos ingleses, na avaliação nietzschiana, não trazem a proveniência do juízo de valor bom e de ruim, pois "[...] estão aplicados à mesma tarefa: [...] colocar em evidência [...](o lado vergonhoso) de nosso interior". O que importa na psicologia nietzschiana é a busca da verdade de uma força imparcial, o oposto do pensamento dos psicólogos ingleses, conforme escreve:
[...] desejo de coração que se dê precisamente o oposto – que esses pesquisadores e microscopistas da alma sejam na verdade criaturas valentes [...], que saibam manter em xeque seu coração e sua dor [...] à verdade, a toda verdade, até mesmo à verdade chã, acre, feia, repulsiva, amoral, acristã... Porque existem tais verdades.
Quando pensa em verdades, Nietzsche quer expressar a interpretação, a perspectiva a que cada um se pauta. O intuito de Nietzsche é o de construir uma história da moral, que ele expressara na obra Além do bem e do mal. Desse modo, a Genealogia é uma crítica, uma verificação que Nietzsche faz do duplo aspecto que existe nos juízos de valores.Sua crítica vai além da perda de um referencial (Deus), chegando à afirmação de uma diferença que se origina nas forças (ativas e reativas).
Na análise de Nietzsche, a moral nasce de duas aplicações: por aquilo que é útil, pois "[...] as ações não-egoístas foram louvadas e consideradas boas por aqueles aos quais eram feitas, aqueles aos quais eram úteis". Essa perspectiva de uma moral útil é a que os psicólogos ingleses apregoam e é a primeira crítica nietzschiana, já que o utilitarismo não entra em sua moral. Esta aplicação da origem da moral no louvor e nas ações não-egoístas foi esquecida mais tarde. Isso fez com que se adquirissem ações altruístas através do costume da linguagem, como se as coisas fossem boas em si mesmas. Temos, aqui, a segunda aplicação da origem da moral, o que leva Nietzsche a fazer um corte com os universais, com a metafísica e com o cristianismo.
Atrelados à utilidade moral que os psicólogos ingleses consideram, estão o esquecimento, o hábito, e o erro. Isso tudo apenas serve para dar base a uma valoração da qual o homem se sente orgulhoso e um privilegiado. O orgulho a tal valoração deve ser humilhado e a valoração desvalorizada, pois é o que fundamenta a teoria que estabelece a fonte do conceito de bom no lugar errado, já que o juízo bom não provém daqueles que se fizeram o bem. Esse pensamento de que o conceito de bom nasce daqueles que através de uma prática que consideram como boa enquadra-se numa perspectiva utilitarista.
Toda a conceituação do bom e do ruim, originada na antítese da divisão das classes sociais, nasce do pensamento de que o homem é um ser dominante. Isso está inteiramente intrínseco em seus impulsos. No impulso de dominação é que a Genealogia da moral encontrou sua real expressão. Para defender sua perspectiva de que a moral nasce da dominância, Nietzsche faz uso da filologia indo às análises morfológicas das palavras bom e ruim.
Nietzsche escreve que "[...] a origem do juízo de valor bom é historicamente insustentável, em si mesma ela sofre de um contra-senso psicológico". O juízo de valor bom refere-se àquilo que é nobre, que traz felicidade, que é caro aos deuses. No alemão, Gut (bom) refere-se ao divino (Got)e ao homem de linhagem divina.
Analisando a palavra alemã schlecht (ruim), Nietzsche descobre que é idêntica a schlicht (simples). Então, ele chega ao schlechtweg (simplesmente) que, desde suas origens, traz a função de designar o homem simples, plebeu. Isso nos prova que as palavras nascem dentro das circunstâncias, revelando que a classe dominante acabou associando à classe plebéia o conceito daquilo que é ruim, o oposto, a antítese da classe nobre. Por isso, os homens que se sentem e são privilegiados, ou a classe nobre, são os que espalham o conceito do que é bom, do que é bondade, do que é nobreza.
Ao analisar a palavra mau, que vem de malus no latim e de melas (negro) no grego, percebe-se que ela é usada para designar "[...] o homem comum como homem de pele escura, sobretudo como de cabelos negros". O bom, o nobre, o puro é o de cabelos loiros, o que faz oposição com o indivíduo de cabelos negros. Com isso, a conceituação ganhou um caráter estritamente político.
Em sua conceituação extremamente humana, colocando o homem no centro das ações, Nietzsche cria teses totalmente contrárias à dos psicólogos ingleses. No campo da religião, faz uma ferrenha crítica à chamada casta sacerdotal. Essa casta cria como que uma alienação nos indivíduos, pois arroga a si uma posição de preeminência espiritual, colocando-se como mais elevada e proferindo coisas que lembrem sua função e posição. Isso gera a contraposição entre puro e impuro, entre bom e ruim. Essa casta sacerdotal domina todos os estamentos da sociedade: a classe nobre e a classe plebeia.
Contra essa dominação, Nietzsche defende que a moral deve nascer da imparcialidade. Não há necessidade de se levar em consideração os valores trazidos pela classe dos sacerdotes nem tampouco pela classe dos nobres. Contudo, fazendo ainda um estudo psicológico da genealogia, Nietzsche constata que a verdade quanto ao que é bom e ao que é ruim adquire uma nova faceta se olhada pelo lado da plebe. Na classe dominada, o conceito de ruim se atribui à nobreza, pois esta, com suas repreensões, castiga, maltrata, despreza a classe mais baixa. Desse modo, se for perguntado ao escravo quem é o ruim, ele indicará seu senhor.
Tudo isso explica porque o homem só consegue pensar em relação ao pensamento de outros. O bom é aquilo que o homem achou útil para si, vindo do outro. A utilidade mesquinha, a referência a outros para pensar e agir tornam-se, para Nietzsche, uma origem marcada de uma inércia duvidosa e de um hábito sem graça. Isso somente distancia o homem daquilo que é realmente autêntico.
Essa dupla designação interpretada por Nietzsche a respeito dos valores de bom e de mal, bom e ruim abre duas perspectivas divergentes tanto em questão de interpretação quanto de avaliação. É da interpretação e da avaliação que procedem os juízos de valor. Notamos, então, tendo em vista as configurações morais das quais se edificam as interpretações e as avaliações, a existência de duas tendências morais distintas. Consequentemente, essa dupla interpretação e avaliação fará referências a dois tipos diferentes de homem: aquele que é nobre e senhor, e aquele que é desprezível e escravo.

Dentre as diversas morais existentes, entre as mais finas e as mais grosseiras, Nietzsche reúne seus traços mais comuns e chega a, pelo menos, dois tipos básicos e uma diferença fundamental. Em Além do bem e do mal, obra escrita antes de a Genealogia, Nietzsche diz que "[...] Há uma moral dos senhores e uma moral de escravos [...]", ressaltando que em todas as culturas, sejam elas consideradas superiores e outras inferiores, percebe-se tentativas de mediação entre esses dois tipos distintos. O que não as isenta, também, de gerar, com frequência, diversas confusões e incompreensões mútuas.
Na condição de que há duas fontes para o nascimento dos valores morais, um deles tem que prevalecer e estabelecer-se sobre a outra. Dentre as muitas diferenças que separam a moral de senhores da moral de escravos, uma das mais importantes relaciona-se à afirmação da diferença. A moral de senhores tem como base o sentimento de distância e superioridade para, assim, fazer as avaliações. Em contrapartida, a moral de escravos baseia suas avaliações na igualdade e na fraqueza. Isso desemboca num antagonismo, separando as duas morais e, também, explicando a relação entre senhor e escravo. O primeiro toma o segundo como desprezível, considerando-o covarde, medroso, mesquinho. Por outro lado, o escravo rebaixa-se a si mesmo, desconfia do senhor e se deixa maltratar.           
O fundamento da moral de escravo se dá no medo. Ele teme os que apresentam força e potência que sejam diferentes à sua. Diante desse temor, cria-se uma moral em defesa da coletividade. Por não possuir impulsos que possam colocá-lo acima da coletividade, o escravo opta por uma moral generalizada e não particularizada ou individualizada. A generalização que o escravo faz é uma reação de medo diante do que lhe é diferente.
A moral de escravo torna-se uma moral de autodefesa e suas avaliações são sua evidente característica. A avaliação dessa moral estabelece que o bom é o que favorece a coletividade. O mau, em contrapartida, é aquilo que ameaça essa coletividade.
Já o homem nobre, junto com sua moral, consegue elevar o tipo de homem que é fazendo deste homem o criador dos valores. Isso o distingue dos demais, evidenciando o tipo de avaliações que estabelece sobre a vida e sobre si mesmo. O nobre acredita poder ser o responsável pelas bases às quais os valores se estabelecem, "[...] ele julga: 'o que me é prejudicial é prejudicial em si', sabe-se como o único que empresta honra às coisas, que cria valores". Os conhecimentos que faz de si são honrados, ou seja, o nobre constrói uma moral da glorificação de si mesmo, que consegue com prazer exercer com vigor e dureza consigo e venerando tudo o que é rigoroso e duro.
Mas a moral de escravo tende a se rebelar. Essa rebelião começa quando o ressentimento desse tipo de moral torna-se criador e gerador de valores. Na Genealogia, Nietzsche escreve que "[...] toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesmo, já de início a moral escrava diz Não a um 'fora', um 'outro', um 'não eu' – e este Não é seu ato criador". A inversão que estabelece valores é algo próprio do ressentimento. A moral escrava, para nascer, pede um oposto, uma exterioridade, requer estímulos exteriores para agir em absoluto, o que torna sua ação uma reação. Nietzsche escreve que esse contrário sucede no modo de valoração do nobre, agindo e crescendo com espontaneidade, buscando seu oposto para apenas dizer sim a si mesmo com maior júbilo e gratidão. Desse modo, o conceito negativo de o baixo, comum, ruim é apenas imagem de contraste em relação ao conceito positivo dos nobres, bons e felizes.
O homem, naturalmente, seja nobre ou escravo, avalia e confere sentido às coisas, pois é vontade de potência. O escravo, por seu lado, inverte, sem querer dizer que não realize uma avaliação, mas que não se torna criação. É uma inversão, uma transformação, uma transmutação dos valores. Ao transmutar, ou inverter, os valores de sua moral de escravo, ele estabelece sua moral como dada, como algo efetivo, além de qualquer reflexão. O objetivo de absolutizar sua moral está no fato de o escravo ter como pano de fundo aquela autodefesa citada anteriormente, que visa dissimular o medo através da universalização de seus próprios preceitos. Dessa forma, toda interpretação moral será vista como a moral única e de validade incondicional, o que torna os preceitos dessa moral intocados e inquestionáveis. Em contrapartida, é uma moral que disfarça a antipatia da vida e que tem como mote uma vida degenerada em que a diferença e a afirmação são substituídas pela igualdade e pela negação. O escravo, por ser considerado um desprezível, avalia sua realidade a partir de seu tipo de vida decadente. Para Nietzsche, remover a máscara é algo necessário e se faz pela identificação da moral que prescreve um valor como valor. Com esse desmascaramento é possível de se determinar qual o valor dos valores. É o absolutizar dos valores e considerá-los como supremos, supervalorizando-os acima de qualquer outra perspectiva ou interpretação contrária.
Em Nietzsche notamos a percepção que tinha de que, mesmo que todos os valores e ideais considerados supremos anteriormente na história humana tenham se desvalorizado, a vida do homem continua. É certo que não vivemos sem referencial: precisamos de valores que sejam ponto de referência para nossas ações, afinal, não vivemos sozinhos, não vivemos isolados, por mais individualista que esta nossa sociedade queira se proclamar. Os valores, contudo, não se constituem num algo-em-si. São pontos de vista, são aquilo que, conforme uma perspectiva, colocam-se como preservação e progresso da vida.
Quando Nietzsche diz que Deus está morto, retira da sociedade toda e qualquer base de valoração. É necessário buscar, então, um novo parâmetro para os valores. Caso contrário, as pessoas vão se tornando cada vez mais materialistas, individualistas, mercantilistas. Não somos máquinas, tampouco somos meras mercadorias. A dignidade humana cada dia mais vem perdendo seu espaço e significado em nossas sociedades, em nossas vidas, em nossas relações.
Com sua obra, Nietzsche não só demonstra um gênio perturbado com as relações dos homens, mas também nos perturba, levando-nos a questionar os laços relacionais que todos temos. O intuito de a Genealogia da moral é o de despertar no leitor uma reflexão e uma ação mais consciente da realidade. Os valores necessitam ser repensados.
Para repensar os valores, é preciso que encontremos, agora, conceitos extremamente imparciais, desligando-nos de qualquer tipo de moral que aprisione. As morais baseadas em conceitos metafísicos tendem ao nada. Os valores tendem a se deteriorar e surgirem novos valores.
A proposta nietzschiana de um ideal ascético, um asceticismo diferente do propagado pelos religiosos, é aquele que coloca o homem no centro. A finalidade desse ideal está nas ações humanas que se baseiam tão somente nas suas relações, não mais com a vontade divina. Essa proposta de Nietzsche é radical. Traz uma mudança essencial das tendências que nos leva a uma antítese.
A salvação deve ser procurada em outra parte. A obra, quando já elaborada, não necessita do artista para ser tomada a sério. Por isso, o filósofo nos leva às origens da moral, para, dali, partirmos para novos valores. Sem isso, o homem estará fadado a sempre encontrar o fracasso, os valores perderem seus sentidos (niilismo), já que transitamos entre os valores de acordo com nossas necessidades.
Fica-nos, neste momento, uma questão: Nietzsche realmente inverteu os valores com algum saldo positivo ou, ao contrário, sua posição não passa de um niilismo destrutivo levado às ultimas consequências? Nietzsche concebe o que ele chama de vontade de potência, que é a superação do niilismo. A metafísica da vontade de potência parece ser a superação do niilismo, uma vez que este é pensado como apenas uma derrubada dos valores supremos.
Nietzsche nos abre os olhos da razão e dos sentimentos para algo mais chão, mais próximo da realidade humana. Resgatar as origens da moral do homem é resgatar a ele próprio, colocando-o em sua dignidade de igualdade. As classes existentes apenas distanciam os homens uns dos outros. Parece até mesmo que Nietzsche pressentia, ou intuía, toda a sociedade contemporânea em que vivemos hoje. Dia após dia, o homem vai se tornando mais solitário, mais fechado em seu mundo individual, perdendo valores, esvaziando-se. Nisso tudo, cada vez mais se perde o sentido da vida, a finalidade das coisas. Tudo é efêmero, transitório. É a humanidade destruindo a própria humanidade.

Referências bibliográficas:

AZEREDO, Vânia Dutra. Nietzsche e a dissolução da moral. São Paulo: Discurso; Ijuí: Unijuí, 2000.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: Um escrito polêmico. Trad. Paulo César Souza. São Paulo: Brasiliense, 1987.

___________. Além do bem e do mal: Prelúdio a uma filosofia do futuro. Trad. Paulo César Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.





Deus e o homem segundo Sartre
Paulo Leandro Maia
Mestrando em Filosofia –PUC/SP


O existencialismo sartreano sofreu influências de Husserl, Heidegger, Jaspers e Max Scheler, dentre outros, chegando até as obras de Kierkergard (1813 – 1855). Na nova atitude, o filósofo de carne e osso se inclui a si mesmo no pensar, que até então se propunha objetivamente e distanciado vivido.
Jean Paul Sartre (1905 – 1890), escreveu O Ser e o Nada, sua principal obra filosófica, em  1943. Mas em 1938 já havia publicado o romance A Náusea. Seu pensamento é muito conhecido e gerou, inclusive uma “moda existencialista”, também pelo fato de ele ter se tornado famoso romancista e teatrólogo.
Sartre revolucionou a compreensão de muitos conceitos. Abordaremos algumas conceituações fundamentais para se compreender sua visão a respeito do homem. Segundo a concepção tradicional, a essência do homem precede a existência. Não é essa, no entanto, a posição de Sartre. E sendo ateu, não aceita a concepção de criação divina a partir de um modelo. Por isso especifica que, ao contrário das coisas e animais, no homem a existência precede a essência, e isso significa: “Que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e quer só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista (Sartre), se não é definivel, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência; o homem não é mais que o que ele faz. Tal é o primeiro do existencialismo”.
Qual a diferença entre o homem e as coisas? É que só o homem é livre. O homem nada mais é do que o seu projeto. A palavra projeto significa, etimologicamente, ser lançado “adiante”, assim como o sufixo ex da palavra existir significa “fora”. Ora, só o homem existe, porque o existir do homem é “para si”, ou seja, sendo consciente, o homem é uma “ser-para-si”, pois a consciência é auto-reflexiva, pensa sobre si mesma, é capaz de pôr-se “fora de si”.
Portanto, a consciência do homem o distingue das coisas e dos animais que são “em si"” ou seja, como não são conscientes de si, também não são capazes de colocar “ do lado de fora” para se auto examinarem. O que acontece ao homem quando se percebe “para si”, aberto à possibilidade de construir ele próprio a sua existência? Descobre, que não havendo essência ou modelo para lhe orientar o caminho, seu futuro se encontra disponível e aberto, estando portanto de Dostoiévski em os Irmãos Karamazov: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”, para relembrar que os valores não são dados nem por deus nem pela tradição: só o próprio homem cabe inventá-los. Se o homem é livre, é conseqüentemente responsável  por tudo aquilo que escolhe e faz. A liberdade só possui significado na ação, na capacidade do homem de operar modificações no real.
O homem não é “em si”, ele é “para si”, que a rigor não é nada, pois se a consciência não tem conteúdo, não é coisa alguma. Mas esse vazio é justamente  a liberdade fundamental do “para si”, que, movendo-se através das possibilidades, poderá criar-lhe conteúdo. Eis que o homem, ao experimentar a liberdade,  e ao sentir-se como um vazio, vive angustia da escolha. Muitas pessoas não suportam essa angustia, fogem dela, aninhando-se na má-fé. A má fé é a atitude característica do homem que finge escolher, sem na verdade escolher. Imagina que seu destino está traçado, que os valores são dados; aceitando as verdades exteriores, mente para si mesmo, simulando ser ele próprio o autor dos seus próprios atos já que aceitou sem criticas os valores dados. “O ser humano não é somente o ser pelo qual se revelar negatividade no mundo. É também o que pode tomar atitudes negativas com relação a si.”
O homem sartreano é desamparado, sem presente, sem chão, voltado para o passado buscando um futuro a ser construído. Sua moral é da escolha, pois segundo Sartre: O homem é livre para agir, para engajar-se na luta pela vida da qual o próprio homem é contingente.
Diante de um período de descrença de valores, hipocrisia da burguesia, Sartre investiga que ele é, quem são os homens e qual o sentido da vida?
Para Sartre o homem vive de escolhas, e são através dessas escolhas, dependendo de qual escolha  fizer, é que o homem vai manifestar a sua presença dentro do mundo. O homem primeiramente existe, e durante o processo de sua existência, ele se torna e vai construindo a essência, ou seja, a existência precede a essência, a essência é um construtor humano. Com isso, Sartre quer dizer que o homem é uma construção que se faz mediante a liberdade, a qual é fruto da sua escolha. “ Quando nasce, o homem é nada. Não existem ideias inatas, anteriores ao surgimento do homem  e destinadas a orientar sua vida, indicando que caminho ele deve seguir. As ideias, o homem extraí de sua experiência pessoal. O indivíduo primeiramente existe; torna-se isto ou aquilo, quer dizer, adquire sua essência”.
O homem deve ser inventado todos os dias, sintetiza Sartre.
É através da liberdade que o homem escolhe o que há de ser, escolha sua essência e busca realizá-la. É a escolha  que  faz entre as alternativas com que se defronta que constitui sua essência. E é essa escolha que lhe permite criar seus valores. Não há como fugir a essa escolha, pois mesmo a recusa em escolher já é uma escolha. Ao escolher, o homem escolhe sua essência e realiza.
Como se processa a aquisição dessa essência? Justamente através das nações de projeto e de escolha, já mencionadas antes. Se o homem primeiramente, não sendo nada a principio, se a ideia de Deus é eliminada, se cada instante o homem primeiramente existe, se cada instante o homem tem de escolher aquilo que vai ser, então só a ele cabe  criar valores sob os quais dirigirá sua vida. Criando-os, torna-se responsável por tudo que fizer. O homem, conforme Sartre, não é nada mais que o seu projeto, só existe na medida em que o realiza através da série de seus atos. Se, no homem a essência precedesse a existência, ele não poderia ser livre, pois desde o princípio sua vida estaria predeterminada. O sucesso ou o fracasso dos atos do homem é sua obra; não lhe é permitido culpar os outros ou as circunstâncias pelos seus erros.
O mundo é opaco. O homem é definido por suas ações, e o destino está em sua ação que permite que ele viva.
Quanto do cogito, Sartre diz que o ponto de partida não pode existir a obridade. A verdade absoluta é o fato do homem aprender a si mesmo ser um intermediário.
Quando o homem se descobre, quando ele se compreende, ele não se prostitui, pois à medida que se encontra, o homem também encontra o outro. A liberdade do homem começa onde começa a do outro e não termina onde começa a do outro.
É no mundo que o homem descobre o que ele é e o que são os outros homens, então não é uma subjetividade de relações, mas de relação. A verdade é dada pelo sujeito que pensa. Quando o homem se compreende, não o faz de maneira isolada, mas na relação com o outro. O homem não existe sem os outros homens (eu não existo sem o outro), e o humanismo é isso, um descobrindo o outro. Para Sartre os projetos humanos são diferentes, mas o que os torna iguais, é que existe uma universalidade entre eles e podem ser entendidos porque são maneiras de lidar com o mundo, de manifestar a existência dele e do outro no mundo. Podemos assim compreender toda a forma de cultura.
A coerência do homem está no momento que ele coloca os valores em vida e só depois é que ele pode julgar. Construímos nós mesmos, na medida que agimos, na media em que o ético se reflete na ação, onde aquilo que o homem é, aquilo que ele faz e não fala, e que seu discurso se não for referendado pela prática estará agindo de má fé. A ética só é realidade na ação, no viver, “Tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber, a salvação esta na ação do homem”.
O homem só acontece na vida moral, escolhendo a uma moral. Ao buscar um projeto que está na possibilidade de superação de si próprio é que o homem se realiza.
Para Sartre o homem vai além, superando-se. O existencialismo não é um ateísmo engajado que se preocupa, mediante a ação do homem que se preocupa em provar a não existência de Deus, mas que se preocupa mediante a ação do homem que é o humanismo. “O existencialismo é uma moral da ação, porque considera a única coisa que define o homem, é o seu ato. Ato livre por excelência, mesmo que o homem sempre esteja situado em determinado tempo ou lugar. Não importa o que as circunstâncias fazem do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele”.
Para Sartre o importante não é se Deus existe ou não, mas sim entender e compreender o homem e sua humanidade em seu existir no mundo, mediante a sua ação frente a si e ao outro.


Fonte:
http://www.paradigmas.com.br/parad09/p6.9.htm. Acesso em 03/02/2013.



Bioética
Débora Carvalho Meldau


A bioética é a ética aplicada à vida e, abrange temas que vão desde uma simples relação interpessoal até fatores que interferem na sobrevivência do próprio planeta. Dentro da medicina veterinária, este termo está intimamente ligado à noção de bem-estar animal. O termo bioética foi utilizado pela primeira vez no ano de 1970, por um médico oncologista chamado van Rensselaer Potter.

As principais razões para seu surgimento foram:

·         Abusos na utilização de animais e seres humanos em experimentos;
·         Surgimento acelerado de novas técnicas desumanizantes que apresentam questões inéditas, como por exemplo, clonagem de seres humanos;
·         Percepção da insuficiência dos referenciais éticos tradicionais, pois devido ao rápido progresso científico, torna-se fácil constatar que os códigos de ética ligados a diferentes profissões não acompanharam o rápido progresso científico, sendo diversas vezes insuficientes para julgar os temas polêmicos da bioética.

O emprego de descobertas científicas pode, muitas vezes, afetar positiva ou negativamente a sociedade ou até mesmo o planeta. Deste modo, a análise das vantagens e desvantagens do emprego de uma determinada tecnologia ou da realização de certos experimentos deve ser avaliada por comitês formados por indivíduos de diversas formações. Sendo assim, pode ser percebido que a bioética envolve profissionais das seguintes áreas:
·         Tecnociências (medicina, veterinária e biologia);
·         Humanidades (filosofia, teologia, psicologia e antropologia);
·         Ciências sociais (economia e sociologia);
·         Direito;
·         Política.

Os princípios básicos da bioética são três:

·         Autonomia ou princípio da liberdade: ele se baseia no fato de que na relação médico-paciente, este último possui o direito de ser informado sobre seu estado de saúde, detalhes do tratamento a ser prescrito e tem toda a liberdade de decidir se irá ou não se submeter ao tratamento determinado. Caso o paciente não possa decidir, os pais ou responsáveis é que tomam a decisão. Em casos de experimentos conduzidos com seres humanos, os indivíduos submetidos aos testes devem receber detalhes dos procedimentos a serem adotados e dar uma autorização, por escrito, de que deseja participar da pesquisa. Na medicina veterinária, como o animal não pode tomar essa decisão, cabe ao médico veterinário fornecer todas as informações sobre o animal e possíveis tratamentos e obter a autorização do proprietário para a realização dos procedimentos.
·         Beneficência ou princípio da não-maleficência: toda e qualquer tecnologia deve trazer benefícios para a sociedade e jamais causar-lhe malefícios. É fato nos dias de hoje, que a bioética está mais relacionada aos seres humanos do que aos animais, pois a maior parte dos experimentos existentes visa beneficiar o homem e não os animais.
·         Justiça distributiva: os avanços técnico-científicos devem beneficiar a sociedade como um todo e não apenas alguns grupos privilegiados.


A bioética divide-se em dimensões, também conhecidas como grandes áreas de estudo da bioética, que são:
 ·         Dimensão pessoal: estuda a relação entre os profissionais responsáveis e seus pacientes. A liberdade do indivíduo ou responsável pelo indivíduo deve ser respeitada;
·         Dimensão social, econômica e política: tem como objetivo estabelecer critérios para que seja determinada a alocação e distribuição de recursos, bem como tentar reduzir as diferenças econômicas e sociais dentro de um país ou entre países. Dentre os diferentes assuntos que são abordados nessa área da bioética, destacam-se: alocação de recursos financeiros; patentes; desequilíbrio entre países ricos e pobres e fome;
·         Dimensões ecológicas: os principais temas que fazem parte da pauta de discussão da bioética no campo da ecologia são proteção ao meio ambiente, exploração dos recursos naturais, desertificação, poluição, extinção de espécies, equilíbrio ecológico, utilização de animais e plantas em condições éticas, proteção da qualidade de vida dos animais, desequilíbrio entre países ricos e pobres, problemas nucleares e proteção da biodiversidade;
·         Dimensão pedagógica: trata-se da discussão de alternativas que visem uma melhora no ensino e aprendizagem nas instituições;
·         Dimensões biológicas ou bioética especial: dentro deste grupo da bioética, destacamos o começo da vida, o diagnóstico pré-natal, o abortamento provocado, a reanimação do recém-nascido, a engenharia genética e organismos geneticamente modificados, terapia gênica, eugenia, reprodução medicamental assistida, clonagem, transplante de órgãos, experimentação animal e em humanos, eutanásia e distanásia.


A importância das discussões em bioética, em razão do seu caráter transdisciplinar, é fazer com que a ciência não utilize indiscriminadamente as novas tecnologias logo que se tornem viáveis, mas somente apenas após possuir o conhecimento e a sabedoria suficientes para utilizá-las em benefício da humanidade e não em seu detrimento. Nesse sentido, a bioética permitirá que a sociedade decida sobre as tecnologias que lhe convêm.


Fonte:
http://www.infoescola.com/medicina/bioetica/. Acesso em: 03/02/2013.