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28 de janeiro de 2013

Ritos corporais entre os Nacirema



              Colégio Estadual Colina Azul

          Disciplina: Sociologia      Profª: Ariane Marzzio

          3º série do Ensino Médio

I Bimestre
Conceito antropológico de cultura: a desnaturalização dos costumes.

Ritos corporais entre os Nacirema

Horace Miner In: A.K. Rooney e P.L. de Vore (orgs) YOU AND THE OTHERS - Readings in Introductory Anthropology (Cambridge, Erlich) 1976.

O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das formas de comportamento que diferentes povos apresentam em situações semelhantes, que é incapaz de surpreender-se mesmo em face dos costumes mais exóticos. De fato, se nem todas as as combinações logicamente possíveis de comportamento foram ainda descobertas, o antropólogo bem pode conjeturar que elas devam existir em alguma tribo ainda não descrita.
Deste ponto de vista, as crenças e práticas mágicas dos Nacirema apresentam aspectos tão inusitados que parece apropriado descrevê-los como exemplo dos extremos a que pode chegar o comportamento humano. Foi o Professor Linton, em 1936, o primeiro a chamar a atenção dos antropólogos para os rituais dos Nacirema, mas a cultura desse povo permanece insuficientemente compreendida ainda hoje.
Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e os Tarahumare do México, e os Carib e Arawak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos Nacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem  à sua nação; ele é, por outro lado, conhecido por duas façanhas de força: ter atirado um colar de conchas, usado pelos Nacirema como dinheiro, através do rio Po- To- Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residiria o Espírito da Verdade. 
A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evolui em um rico habitat. Apesar do povo dedicar muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável porção do dia são dispensados  em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde surgem como o interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse não seja, por certo, raro, seus aspectos cerimoniais e a filosofia a eles associadas são singulares. 
A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que sua tendência natural é para a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas características através do uso das poderosas influências do ritual e do cerimonial. Cada moradia tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos desta sociedade têm muitos santuários em suas casas e, de fato, a alusão  à opulência de uma casa, muito frequentemente, é feita em termos do número de tais centros rituais que possua. Muitas casas são construções de madeira, toscamente pintadas, mas as câmeras de culto das mais ricas têm paredes de pedra. As famílias mais pobres imitam as ricas, aplicando placas de cerâmica  às paredes de seu santuário. 
Embora cada família tenha pelo menos um de tais santuários, os rituais a eles associados não são cerimônias familiares, mas sim cerimônias privadas e secretas. Os ritos, normalmente, são discutidos apenas com as crianças e, neste caso, somente durante o período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios. Eu pude, contudo, estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santuários e obter descrições dos rituais. 
O ponto focal do santuário é uma caixa ou cofre embutido na parede. Neste cofre são guardados os inúmeros encantamentos e poções mágicas sem os quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Tais preparados são conseguidos através de uma serie de profissionais especializados, os mais poderosos dos quais são os médicos-feiticeiros, cujo auxilio deve ser recompensado com dádivas substanciais. Contudo, os médicos-feiticeiros não fornecem a seus clientes as poções de cura; somente decidem quais devem ser seus ingredientes e então os escrevem em sua linguagem antiga e secreta. Esta escrita é entendida apenas pelos médicos-feiticeiros e pelos ervatários, os quais, em troca de outra dadiva, providenciam o encantamento necessário. Os Nacirema não se desfazem do encantamento após seu uso, mas os colocam na caixa-de-encantamento do santuário doméstico. Como tais substâncias mágicas são especificas para certas doenças e as doenças do povo, reais ou imaginárias, são muitas, a caixa-de-encantamentos está geralmente a ponto de transbordar. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas esquecem quais são suas finalidades e temem usá-los de novo. Embora os nativos sejam muito vagos quanto a este aspecto, só podemos concluir que aquilo que os leva a conservar todas as velhas substâncias é a ideia de que sua presença na caixa-de-encantamentos, em frente à qual são efetuados os ritos corporais, irá, de alguma forma, proteger o adorador. 
Abaixo da caixa-de-encantamentos existe uma pequena pia batismal. Todos os dias cada membro da família, um após o outro, entra no santuário, inclina sua fronte ante a caixa-de-encantamentos, mistura diferentes tipos de águas sagradas na pia batismal e procede a um breve rito de ablução. As águas sagradas vêm do Templo da Água da comunidade, onde os sacerdotes executam elaboradas cerimônias para tornar o líquido ritualmente puro. 
Na hierarquia dos mágicos profissionais, logo abaixo dos médicos-feiticeiros no que diz respeito ao prestígio, estão os especialistas cuja designação pode ser traduzida por "sagrados-homens-da-boca". Os Nacirema têm um horror quase que patológico, e ao mesmo tempo fascinação, pela cavidade bucal, cujo estado acreditam ter uma influência sobre todas as relações sociais. Acreditam que, se não fosse pelos rituais bucais seus dentes cairiam, seus amigos os abandonariam e seus namorados os rejeitariam. Acreditam também na existência de uma forte relação entre as características orais e as morais: Existe, por exemplo, uma ablução ritual da boca para as crianças que se supõe aprimorar sua fibra moral. 
O ritual do corpo executado diariamente por cada Nacirema inclui  um rito bucal. Apesar de serem tão escrupulosos no cuidado bucal, este rito envolve uma prática que choca o estrangeiro não iniciado, que só pode considerá-lo revoltante. Foi-me relatado que o ritual consiste na inserção de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca juntamente com certos pós mágicos, e em movimentá-lo então numa série de gestos altamente formalizados. Além do ritual bucal privado, as pessoas procuram o mencionado sacerdote-da-boca uma ou duas vezes ao ano. Estes profissionais têm uma impressionante coleção de instrumentos, consistindo de brocas, furadores, sondas e aguilhões. O uso destes objetos no exorcismo dos demônios bucais envolve, para o cliente, uma tortura ritual quase inacreditável.  O sacerdote-da-boca abre a boca do cliente e, usando os instrumentos acima citados, alarga todas as cavidades que a degeneração possa ter produzido nos dentes. Nestas cavidades são colocadas substâncias mágicas. Caso não existam cavidades naturais nos dentes, grandes seções de um ou mais dentes são extirpadas  para que a substância natural possa ser aplicada. Do ponto de vista do cliente, o propósito destas aplicações é tolher a degeneração e atrair amigos. O caráter extremamente sagrado e tradicional do rito evidencia-se pelo fato de os nativos voltarem ao sacerdote-da-boca ano após ano, não obstante o fato de seus dentes continuarem a degenerar.
Esperemos que quando for realizado um estudo completo dos Nacirema haja um inquérito cuidadoso sobre a estrutura da personalidade destas pessoas, Basta observar o fulgor nos olhos de um sacerdote-da- boca, quando ele enfia um furador num nervo exposto, para se suspeitar que este rito envolve certa dose de sadismo. Se isto puder ser provado, teremos um modelo muito interessante, pois a maioria da população demonstra tendências masoquistas bem definidas. 
Foi a estas tendências que o Prof. Linton (1936) se referiu na discussão de uma parte específica dos ritos corporal que é desempenhada apenas por homens. Esta parte do rito envolve raspar e lacerar a superfície da face com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos  têm lugar apenas quatro vezes durante cada mês lunar, mas o que lhes falta em frequência é compensado em barbaridade. Como parte desta cerimônia, as mulheres usam colocar suas cabeças em pequenos fornos por cerca de uma hora. O aspecto teoricamente interessante é que um povo que parece ser preponderantemente masoquista tenha desenvolvido especialistas sádicos. 
Os médicos-feiticeiros têm um templo imponente, ou latipsoh, em cada comunidade de certo porte. As cerimônias mais elaboradas, necessárias para tratar de pacientes muito doentes, só podem ser executadas neste templo. Estas cerimônias envolvem não apenas o taumaturgo, mas um grupo permanente de vestais que, com roupas e toucados específicos, movimentam-se serenamente pelas câmaras do templo. 
As cerimonias latipsoh são tão cruéis que é de surpreender que uma boa proporção de nativos realmente doentes que entram no templo se recuperem. Sabe-se que as crianças pequenas, cuja doutrinação ainda é incompleta, resistem  às tentativas de levá-las ao templo, porque "é lá que se vai para morrer". Apesar disto, adultos doentes não apenas querem mas anseiam por sofrer os prolongados rituais de purificação, quando possuem recursos para tanto. Não importa quão doente esteja o suplicante ou quão grave seja a emergência, os guardiões de  muitos templos não admitirão um cliente se ele não puder dar uma  dádiva valiosa para a administração. Mesmo depois de ter-se conseguido a admissão, e sobrevivido às cerimônias, os guardiães não permitirão ao neófito abandonar o local se ele não fizer outra doação. 
O suplicante que entra no templo é primeiramente despido de todas as suas roupas. Na vida cotidiana o Nacirema evita a exposição de seu corpo e de suas funções naturais. As atividades excretoras e o banho, enquanto parte dos ritos corporais, são realizados apenas no segredo do santuário doméstico. Da perda súbita do segredo do corpo quando da entrada no latipsoh, podem resultar traumas psicológicos. Um homem, cuja própria esposa nunca o viu em um ato excretor, acha-se subitamente nu e auxiliado por uma vestal, enquanto executa suas funções naturais num recipiente sagrado. Este tipo de tratamento cerimonial é necessário porque os excreta são usados por um adivinho para averiguar o curso e a natureza da enfermidade do cliente. Clientes do sexo feminino, por sua vez, têm seus corpos nus submetidos ao escrutínio, manipulação e aguilhadas dos médicos-feiticeiros. 
Poucos suplicantes no templo estão suficientemente bons para fazer qualquer coisa além de jazer em duros leitos. As cerimônias diárias, como os ritos do sacerdote-da-boca, envolvem desconforto e tortura. Com precisão ritual as vestais despertam seus miseráveis fardos a cada madrugada e os rolam em seus leitos de dor enquanto executam abluções, com os movimentos formais nos quais estas virgens são altamente treinadas. Em outras horas, elas inserem bastões mágicos na boca do suplicante ou o forçam a engolir substâncias que se supõe serem curativas. De tempos em tempos o médico-feiticeiro vem ver seus clientes e espeta agulhas magicamente tratadas em sua carne. O fato de que estas cerimônias do templo possam não curar, e possam mesmo matar o neófito, não diminui de modo algum a fé das pessoas no médico feiticeiro. 
            Resta ainda um outro tipo de profissional, conhecido como um "ouvinte". Este "doutor-bruxo" tem o poder de exorcizar os demônios que se alojam nas cabeças das pessoas enfeitiçadas. Os Nacirema acreditam que os pais enfeitiçam seus próprios filhos; particularmente, teme-se que as mães lancem uma maldição sobre as crianças enquanto lhes ensinam os ritos corporais secretos. A contra-magia do doutor bruxo é inusitada por sua carência de ritual. O paciente simplesmente conta ao "ouvinte" todos os seus problemas e temores, principalmente pelas dificuldades iniciais que consegue rememorar. A memória demonstrada pelos Nacirema  nestas sessões de exorcismo é verdadeiramente notável. Não é incomum  um paciente deplorar a rejeição que sentiu, quando bebê, ao ser desmamado, e uns poucos indivíduos reportam a origem de seus problemas aos feitos traumáticos de seu próprio nascimento. 
Como conclusão, deve-se fazer referência a certas práticas que têm suas bases na estética nativa, mas que decorrem da aversão profunda ao corpo natural e suas funções. Existem jejuns rituais para tornar magras pessoas gordas, e banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras. Outros ritos são usados para tornar maiores os seios das mulheres que os têm pequenos e torná-los menores quando são grandes. A insatisfação geral com o tamanho do seio é simbolizada no fato de a forma ideal estar virtualmente além da escala de variação humana. Umas poucas mulheres, dotadas de um desenvolvimento hipermamário quase inumano, são tão idolatradas que podem levar uma boa vida simplesmente indo de cidade em cidade e permitindo aos embasbacados nativos, em troca de uma taxa, contemplarem-nos. 
Já fizemos referência ao fato de que as funções excretoras são ritualizadas, rotinizadas e relegadas ao segredo. As funções naturais de reprodução são, da mesma forma, distorcidas. O intercurso sexual é tabu enquanto assunto, e é programado enquanto ato. São feitos esforços para evitar a gravidez, pelo uso de substâncias mágicas ou pela limitação do intercurso sexual a certas fases da lua. A concepção é na realidade, pouco frequente. Quando grávidas as mulheres vestem-se de modo a esconder o estado. O parto tem lugar em segredo, sem amigos ou parentes para ajudar, e a maioria das mulheres não amamenta seus rebentos. 
Nossa análise da vida ritual dos Nacirema certamente demonstrou ser este povo dominado pela crença na magia. É difícil compreender como tal povo conseguiu sobreviver por tão longo tempo sob a carga que impôs sobre si mesmo. Mas até costumes tão exóticos quanto estes aqui descritos ganham seu real significado quando são encarados sob o ângulo relevado por Malinowski, quando escreveu:
"Olhando de longe e de cima de nossos altos postos de segurança na civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia. Mas sem seu poder de orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como o fêz, suas dificuldades práticas, nem poderia ter avançado aos estágios mais altos da civilização".

27 de janeiro de 2013

Sociologia no Brasil


Atendendo ao Currículo Referência da Rede Estadual de Educação de Goiás
Conteúdo para o 1º Bimestre da 2ª Série do Ensino Médio


Colégio Estadual Colina Azul

          Disciplina: Sociologia      Profª: Ariane Marzzio

          2º série do Ensino Médio


I Bimestre
SOCIOLOGIA NO BRASIL
               
Cap. 01   _                A formação do pensamento sociológico no Brasil

No Brasil, o processo de formação, organização e sistematização do pensamento sociológico obedeceu às condições de desenvolvimento do capitalismo e à dinâmica própria de inserção do país na ordem capitalista mundial. Refletindo, portanto, a situação colonial, a herança da cultura jesuítica e o lento processo de formação do Estado nacional.
No período colonial, a cultura religiosa foi utilizada como um importante instrumento de colonização. A Ordem dos Jesuítas com sua filosofia universalista e escolástica, durante três séculos, exerceram o monopólio sobre a educação. O pensamento culto e a produção artística que no país à época se desenvolveram, introduzindo paralelamente um sistema misto de exploração do trabalho indígena que, combinado com o ensino religioso, agiu de modo a aniquilar gradativamente a cultura nativa, submetendo as populações escravas e distinguindo drasticamente as camadas cultas daquelas que realizavam o trabalho braçal. De forma que se pode afirmar que a cultura do Brasil colonial mantém e ostenta ao longo de sua vigência um caráter ilustrado, de distinção social e dominação.
No século XVIII, ocorre o surgimento e a influência das classes intermediárias, o desenvolvimento da mineração promove importantes transformações sociais, alterando a sociedade colonial que, até então, dividia-se em: donos de terra e administradores de um lado e escravos de outro. Surgindo ocupações novas: comerciantes, artífices, criadores de animais, funcionários da administração que controlavam a extração de minérios e sua exportação, e outras. A população livre passa a ser mais numerosa que a escrava. Essa camada intermediária livre e sem propriedades, torna-se consumidora da erudição e cultura europeia, tentando distinguir-se tanto do escravo inculto como da elite colonial conservadora, contando para tanto, com o ensino praticado pelas ordens religiosas - caráter progressivo - estabelecidas em Minas Gerais à época. No campo das artes plásticas, passam a ser notadas manifestações nacionais, por meio de um barroco original e uma música de técnica surpreendente. Já, no que tange ao campo científico, a produção mostra-se ainda muito pequena, predominando, por sua vez, ainda o saber erudito voltado para os estudos jurídicos.
No que tange ao século XIX, com a transferência da corte joanina para o Brasil, em 1808, é introduzida na colônia a cultura portuguesa da época, resultante das influências do humanismo neoclassista francês e da produção cultural da Universidade de Coimbra. São fatos importantes, referente à época: a criação da Academia de Belas Artes, a fundação da imprensa, o lançamento do primeiro jornal, a organização da primeira Biblioteca Nacional e dos primeiros cursos superiores, que em parte rompem com a cultura escolástica e literária anterior. Neste período também se introduziu o instrumental prático destinado à formação e viabilização do aparelho administrativo do império, porém, ainda que voltada mais à praticidade, a cultura nacional continuava sendo alienada, ditada pelas formas europeias, objetivando organizar o saber descritivo, funcional e ostentatório, bem como, garantir o domínio do poder imperial.
Nos movimentos intelectuais e literários até meados do século XIX, apesar de tratarem de questões políticas e sociais, a terra e a nação surgiram apenas como objeto, como tema, nunca como pensamento crítico desenvolvido a partir das condições próprias da nação. Essa dicotomia entre a realidade vivida e o conhecimento produzido e consumido pela elite não só mantinha a prevalência do caráter ostentatório da cultura de elite, como caracterizava uma nova forma de alienação, responsável pelo tardio desenvolvimento da ciência no Brasil. Somente após 1870, sob pressão do que ocorria na Europa, que significativas mudanças irrompem na sociedade brasileira, mudanças essas que fundidas a ciclos econômicos decadentes provocaram a emergência do pensamento crítico que passa a ser apresentado de forma incisiva, tanto na criação literária quanto na crítica social.
É de grande importância para o desenvolvimento do pensamento sociológico brasileiro o desenvolvimento do capitalismo no país. O desenvolvimento das atividades comerciais e de exportação, do início do século, com a formação da burguesia nacional, revolucionou o modo de pensar da intelectualidade e da sociedade brasileira. Essa revolução decorre da necessidade da nova classe, de um saber mais pragmático, menos vinculado a uma estrutura social herdada da colonização. A partir de então, verifica-se uma tentativa de ruptura com a herança cultural do passado e procura-se combater o analfabetismo, homogeneizar os valores e o discurso, criar um sentimento de patriotismo que levasse a mudanças reais na estrutura social, repudiando todo traço de colonialismo, de atraso e importação cultural.
Mas apesar de podermos reconhecer que desde o final do século XIX, já se possa verificar no Brasil uma espécie de pensamento sociológico, desenvolvida por Euclides da Cunha, dentre outros, a sociologia entendida como atividade autônoma voltada para o conhecimento sistemático e metódico da sociedade, só irrompe na década de 30 do século passado. Época em que o mundo liberal entrou em crise profunda e as relações econômicas internacionais mostraram suas contradições mais agudas, afinal, é no momento de crise que a crítica se desenvolve, sistematizando-se de maneira científica na sociologia.



A década de 1930 e o surgimento da análise sociológica brasileira

Geração de 30
A sociologia, como atividade voltada para o conhecimento sistemático da sociedade, só aparece na década de 30 com a fundação da Universidade de São Paulo, embora o pensamento sociológico já exista no Brasil desde o final do século XIX, desenvolvido por Euclídes da Cunha em sua obra Os Sertões e nas ideias abolicionistas e republicanas.
Nessa época uma das preocupações em geral dos intelectuais era o interesse da descoberta do Brasil verdadeiro, contradizendo aquela visão etnocêntrica dos europeus. Buscavam também desenvolver e modernizar a estrutura social brasileira.
Os intelectuais desse período ficaram conhecidos como geração de 30, dentre eles podemos destacar:

Gilberto Freyre
Gilberto de Melo Freyre nasceu em Recife-PE em 1900. Sua obra representou um divisor de águas na evolução cultural do Brasil e contribuiu para que o país encarasse com mais confiança seu papel no mundo moderno.
Fez sua pós-graduação nas universidades norte-americanas de Baylor (Waco, Texas) e Colúmbia (Nova York) onde esteve sob a influência de Frans Boas. Ao término do curso apresentou em 1922 a tese: Social live in Brazil in the middle of 19th century (A vida social no Brasil em meados do século XIX), que mais tarde se transformaria em seu famoso livro Casa-Grande & Senzala, publicado em 1932, tendo um impacto tão grande quanto Os Sertões de Euclides da Cunha. Nesta obra, Freire imprime sua visão poderosa e original dos fundamentos da sociedade brasileira, descreve com objetividade a contribuição do negro e o fenômeno da miscigenação na formação social do Brasil.

Caio Prado Júnior
Caio Prado vinha de uma das famílias mais ricas e conceituadas do Brasil naquela época. Ele procurava formalizar o método marxista para análise da realidade brasileira. Em seu livro Evolução política do Brasil (1933) interpretava a situação político-colonial brasileira a partir das relações internacionais capitalistas e seu mecanismo comercial, desde a expansão marítima europeia.
Depois de uma viagem a União Soviética, em 1938, ele publicou, URSS: um novo mundo, desde então se torna militante de esquerda, assumindo a presidência da Aliança Nacional Libertadora, em São Paulo, motivo este de sua prisão e exílio (1935-1939). Ao voltar ao Brasil, publicou mais duas obras de grande repercussão nacional, Formação do Brasil Contemporâneo (1942) e História Econômica do Brasil (1945).

Plínio Salgado
Destacou-se pelo seu integralismo, com um movimento nacionalista, anticomunista, antiliberal e anti-semita. Via com desconfiança não só o movimento modernizador da sociedade, mas como também o liberalismo e o marxismo.
Depois de uma viagem a Itália em 1930 onde conheceu Mussolini, voltou decidido a fundar um movimento fascista no Brasil. Já em 1932 publica o Manifesto de Outubro e participa da fundação da Ação Integralista Brasileira (AIB) que seria o meio de compatibilizar os aspectos dicotômicos da sociedade brasileira que,  segundo ele, era estreitamente dualista.


Fernando de Azevedo
Mineiro de São Gonçalo de Sapucaí, em São Paulo, participa da fundação da Universidade de São Paulo, que, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, ocupou a cadeira de Sociologia e foi diretor da mesma.
Antes na década de 20 foi responsável pela reforma do ensino no país a partir de experiências feitas no Rio de Janeiro e no Ceará. Ao mesmo tempo aristocrata e  humanista, unia os anseios liberais e moderadamente socialistas. Em sua principal obra, A cultura brasileira, retoma a tese de uma unidade nacional baseada em diferenças regionais, culturais e éticas.

Sérgio Buarque de Hollanda
Inspirando-se na tese de Ribeiro Couto, que identificava o brasileiro como “homem cordial”, Sérgio realizou uma pesquisa de primeira mão, na intenção de negligenciar a interpretação dos fatos. Foi nessa documentação que ele se baseou para editar, em 1936, uma de suas principais obras, Raízes do Brasil, a qual o tornou autoridade internacionalmente reconhecida sobre assuntos do Brasil colônia.  Foi um dos pioneiros a utilizar na análise histórica brasileira o método tipológico de Marx Weber.
Em sua obra, Visão do paraíso (1959) consegue pela primeira vez intervir na visão estereotipada que os europeus tinham do Brasil.

Fundação da Escola Livre de Sociologia e Política e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.
A sociologia, como atividade autônoma voltada para o conhecimento sistemático e metódico da sociedade, só vem aparecer no Brasil na década de 30 com a fundação da Escola Livre de Sociologia e Política, que sofria forte influência norte-americana. E também da Universidade de São Paulo com a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que se dedicava a estudos orientados pela sociologia europeia, em destaque a francesa.
Ambas tiveram lecionando em seus âmbitos acadêmicos, professores vindos do exterior para a formação profissional de vários cientistas sociais. Na USP esteve no corpo docente a chamada “missão francesa” Lévi-Strauss, Georges Gurvitch, Roger Bastide, Paul Arbousse-Bastide, Fernand Braudel, entre outros. Já para Escola Livre de Sociologia e Política vieram Donald Pierson e Radcliffe-Brown, trazendo toda metodologia sociológica norte americana.
Foi de imensa importância a vinda desses intelectuais ao Brasil, que gerou um grupo de sociólogos que passaram a desenvolver todo conhecimento adquirido em pesquisas já no fim da década de 40, entre eles Maria Isaura Pereira de Queiroz, Ruy Galvão de Andrada Coelho, Florestan Fernandes, Antonio de Mello e Souza e Gilda de Mello e Souza, entre outros.

Década de 40
Esse foi um dos momentos mais críticos da história da humanidade, pois acontecia a Segunda Grande Guerra Mundial, que consolidou os EUA e a URSS como duas potencias mundiais opostas, tornando o mundo bipolar.
Nessa época, o Brasil adquiria uma consciência crítica de sua realidade, complexidade e particularidade. Onde se buscava o nacionalismo. Portanto, integração e mudanças eram temas recorrentes na sociologia do pós-guerra.
Não só o Brasil, mas diversos países latino-americanos receberam “cronistas viajantes”, assim descritos por Octávio Ianni, que nada mais eram do que intelectuais estrangeiros, que fugindo da guerra na Europa, procuravam estruturas sociais diferentes, sociedades que, por sua diversidade, poderiam realizar uma linha de raciocínio diferente daquela já conhecida.
Emílio Willems tem uma grande importância nessa época, devido à sua obra, Assimilação e populações marginais no Brasil, um estudo sociológico sobre a contribuição dos imigrantes germânicos e seus descendentes na história brasileira, que destaca situações de estudo brasileiras. Mas este interesse não se resumiu somente a ele, haviam também muitos jovens sociólogos interessados em avaliar a mobilidade social de diferentes grupos étnicos como negros, brancos, migrantes, imigrantes de diferentes nacionalidades, alemães, libaneses, japoneses, italianos.
Ele também teve grande importância na sociologia brasileira, junto com Romano Barreto fundaram a revista Sociologia, que exerceu um papel importantíssimo na divulgação da Sociologia alemã, já que traduzia os artigos dos sociólogos alemães para a Revista, dedicando-se especialmente a obra de seu professor, Richard Thurnwald.

A sociologia brasileira na década de 50
A segunda guerra mundial trouxe profundas desestruturações na sociologia mundial. Diversos intelectuais europeus migraram para a América em busca de novos ares para produzirem suas obras. Esses “cronistas viajantes” efervesceram o cenário sociológico, pois acharam aqui um panorama totalmente diferente da realidade de onde viviam.
Esse período foi de grande importância para o desenvolvimento das ciências da sociedade, pois temas sócio-econômicos eram explorados por pensadores que tem uma grande repercussão até os dias de hoje, são eles: Florestan Fernandes e Celso Furtado.

Florestan Fernandes
Florestan Fernandes estudou na USP, onde teve grande influencia de Roger Bastide, que desenvolveram em parceria um estudo sobre negros e a questão racial no Brasil, que originou umas de suas mais prestigiadas obras, A integração do negro na sociedade de classes.
Florestan pregava a “sociologia militante”, que visava unir a teoria com a prática, logo, teve uma grande influência de Marx, a busca em conciliar a teoria e a ação prática foi uma grande marca em sua vida. Ele entendia que a sociedade devia ser estudada pelos fundamentos de sua organização e ocorrências históricas, os dilemas ressaltados, motivo de sua concepção de análise, que por muitos foi definida como “histórico-cultural”. Na visão florestaniana a sociedade brasileira, por ter uma formação histórica peculiar, exigia uma abordagem com traços nítidos e definidos no estudo das relações sociais.
Dentre suas diversas obras podem destacar: A integração do negro na sociedade de classes; A revolução burguesa no Brasil; Fundamentos empíricos da explicação sociológica; e A sociologia numa era de revolução social.

Celso Furtado
Um dos grandes nomes do pensamento econômico, não só do Brasil, mas como em toda a America Latina, sem duvida foi Celso Furtado. Desenvolveu diversos trabalhos na área econômica, principalmente em parceria com a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina), criando assim a escola “cepaliana”. É considerado o pai da economia política brasileira. Antes dele, o pensamento econômico brasileiro era formado por esquemas interpretativos, como o estabelecimento dos preços e a lei da oferta e da procura, as quais defendiam o interesse das classes dominantes.
Porém, Furtado vem desmistificar toda essa ideologia, propondo uma interpretação histórica da realidade econômica. Defendia que o subdesenvolvimento não correspondia a uma etapa histórica, mais sim de formação econômica influenciada pelo capitalismo internacional, analisava situações de países onde havia um notável desenvolvimento industrial e o estágio agrário não tinha sido superado, como o caso da maioria dos países latino-americanos.
Durante o governo de Goulart, Celso Furtado exerceu celebre trabalho como diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento (atual BNDES) e da SUDENE, este no governo de Juscelino Kubistchek. Nessa época, Furtado era visto como o principal defensor dos interesses do Brasil diante do capitalismo internacional.
Suas principais obras são Desenvolvimento e Subdesenvolvimento, livro que se amplia em volume posterior; Teoria e Política do Desenvolvimento Econômico; Um projeto para o Brasil; A pré-revolução brasileira; O Mito do Desenvolvimento Econômico, que ele levanta duas questões, a primeira delas diz respeito aos impactos do processo econômico no meio físico, na natureza – um tema completamente alheio ao núcleo do pensamento tradicional na economia – e a segunda se refere à constatação do caráter de mito moderno do desenvolvimento econômico. Porém, seu clássico é, Formação Econômica do Brasil, obra esta que faz um estudo amplo e inédito da realidade histórica econômica do Brasil, do tempo da colonização portuguesa aos dias atuais, e claros em relação à época em que ela foi escrita.



Cap. 02   _                              Teoria do Desenvolvimento


Celso Furtado e a Teoria do Subdesenvolvimento

As idéias cepalinas
A Cepal (Comissão Econômica para a América Latina) foi criada pelas Nações Unidas em 1948, sendo sua sede, fixada na Capital do Chile. Cabia a esta Comissão, estudar o subdesenvolvimento latino-americano, procurando explicar suas causas, como também suas possibilidades de superação.
Entretanto, a Cepal foi além desse projeto inicial, pois criou um instrumental analítico próprio, que englobava em um mesmo quadro interpretativo, os elementos: estrutural, dualista e histórico. Estrutural e dualista, porque a economia mundial deve ser entendida como uma estrutura centro-periferia que se auto-reproduz, em ritmos diferentes; e histórico, porque as causas do subdesenvolvimento, devem ser procuradas no seu encadeamento histórico.
Os principais conceitos (Celso Furtado, 1961) do instrumental analítico cepalino, acerca do subdesenvolvimento latino-americano são:
- subdesenvolvimento: é o subproduto do desenvolvimento, ou seja, é uma estrutura historicamente determinada pela evolução do capitalismo europeu;
- industrialização induzida: é aquela que ocorre por estímulo direto do Estado, contemplando assim, intervenção, planejamento e protecionismo;
- planejamento: é o instrumento que coordena os esforços de industrialização, estabelecendo metas, para a superação dos obstáculos estruturais, que impedem ou dificultam o desenvolvimento;
- desenvolvimento: projeto, que tanto garante crescimento econômico, quanto, bem-estar à maioria da população.
A originalidade do pensamento cepalino, o transformou na primeira escola do pensamento latino-americano, de influência mundial. Os trabalhos dos economistas Raúl Prebisch (economista argentino - principal representante da escola cepalina, juntamente com Celso Furtado) e Celso Furtado, à frente da Cepal tornaram possível a emergência de uma nova visão da realidade latino-americana e a compreensão, de que o subdesenvolvimento pode ser superado.

O método furtadiano
A formação intelectual do economista Celso Furtado, deu-se sob uma tríplice influência. Inicialmente, comparece em sua obra, o positivismo, e logo, a concepção de que a ciência fornece o conhecimento em sua forma mais nobre. Em seguida, comparecem a sociologia do conhecimento de Karl Mannheim e a sociologia norte-americana de Gilberto Freire. A primeira, revelando que o conhecimento científico, deve insere-se em um contexto social e a segunda, apontando para a dimensão cultural do processo histórico.
De acordo com Francisco de Oliveira (citado por Lourenço Dantas Mota, 1999), o pensamento furtadiano, recebeu ainda, influências intelectuais de Max Weber, Karl Marx e John Maynard Keynes. Do conceituário weberiano, utilizou o conceito de racionalidade; a partir da dialética marxista, construiu uma complexa relação entre teoria e história, onde, a história é a teoria e a teoria é a história; através da teoria keynesiana (demanda como núcleo do processo econômico) explicou como o Estado brasileiro dos anos de 1930, pôde realizar ações intervencionistas, que foram decisivas para a construção do mercado interno.
A esse conjunto de influências, Celso Furtado acrescentou o enfoque estruturalista-histórico-dualista, criando assim, um método próprio de explicação para o subdesenvolvimento brasileiro, qual seja, o método furtadiano.  As principais características do método inaugurado por Furtado são:
a) o estudo da dependência, deve partir de uma visão global da economia mundial e de uma visão particular da dinâmica das economias dominadas;
b) a visão histórica, é peça fundamental para explicar as raízes estruturais do subdesenvolvimento.
A análise do subdesenvolvimento envolve ainda a concepção, de que, dentro do próprio capitalismo, serão encontradas as possibilidades de superação da dependência. Furtado é crítico, tanto, das proposições liberais, que primam pela estabilidade, em detrimento do desenvolvimento, quanto, das teses marxistas que pregam a ruptura com o sistema capitalista. Na visão de Plínio de Arruda Sampaio Júnior (1999) a crença furtadiana de que é possível encontrar soluções, para os impasses da dependência sem romper com o regime capitalista, torna a análise do subdesenvolvimento latino-americano bastante limitada.
Apesar de tal crítica, Celso Furtado é considerado o principal representante da corrente nacional-desenvolvimentista, que caracterizou o Brasil durante a década de 1950. De acordo com Ricardo Bielschowsky (1996), o seu trabalho intelectual, corresponde a um exercício analítico do mais alto grau de criatividade e competência. Ninguém melhor do que Furtado, aplicou o método estruturalista, a um caso específico (brasileiro) como ele o fez. Além disso, Francisco de Oliveira (citado por Lourenço Dantas Mota, 1999) afirma, que a contribuição do pensamento furtadiano às Ciências Sociais, engloba duas vertentes: primeiro, a construção original do conceito de subdesenvolvimento e segundo, o uso fecundo do método, confrontando diretamente teoria e história.
Enfim, segundo o próprio Celso Furtado (1998:11), o traço principal que caracteriza seu método analítico é:
“O compromisso ético com valores universais que transcendem todas as formas de paroquialismo e a confiança na liderança de forças sociais cujos interesses se confundem com os da coletividade nacional.”

O subdesenvolvimento: da formação histórica às diretrizes de superação

Segundo Celso Furtado, o subdesenvolvimento, corresponde a uma configuração específica da periferia do sistema capitalista, que se reproduz em diferentes níveis de crescimento. O subdesenvolvimento não é uma etapa histórica comum a todos os países, mas sim, um dos possíveis resultados da evolução da economia mundial moderna, fomentada pelo advento da Revolução Industrial, na Europa do século XVIII. Essa, de acordo com Celso Furtado condicionou o desenvolvimento econômico mundial, em três direções distintas: a primeira correspondeu ao próprio desenvolvimento industrial dos países da Europa Ocidental; a segunda resultou na formação de núcleos industriais em países que apresentavam características semelhantes aos países europeus (Austrália, Canadá e Estados Unidos); e finalmente a terceira, provocou a formação de estruturas econômicas dependentes. Em suas palavras (citado por Ricardo Bielschowsky, 1996: 139):
“A terceira linha de expansão da economia industrial européia foi em direção às regiões já ocupadas, algumas delas densamente povoadas, com seus sistemas econômicos seculares de variados tipos, mas todos de natureza pré-capitalista (...). O efeito do impacto da expansão capitalista sobre as estruturas arcaicas variou de região para região, ao sabor das circunstâncias locais, (...) a resultante foi quase sempre à criação de estruturas híbridas, uma parte das quais tendia a comporta-se como um sistema capitalista, a outra, a manter-se dentro da estrutura preexistente. Esse tipo de economia dualista constitui, especificamente, o fenômeno do subdesenvolvimento contemporâneo.”
Nesses termos, a característica principal das economias subdesenvolvidas, situa-se na existência de uma deformação estrutural, caracterizada pelo dualismo atrasado-moderno. Tal deformação estrutural resulta em crescentes desequilíbrios sociais, políticos e econômicos.
É possível superar o subdesenvolvimento? Para Celso Furtado, sim. Os países subdesenvolvidos não estão fadados à dependência e ao atraso, pelo contrário, à medida que o subdesenvolvimento é uma formação histórica específica, ele é passível de ser superado. Contudo, a sua superação, depende diretamente da industrialização e do fortalecimento do mercado interno. A questão central é fazer com que o sistema industrial dos países periféricos tenha capacidade de autogerar-se, substituindo assim, os milagres econômicos, por um programa sistemático de industrialização.
Dentro dessa perspectiva, modificações estruturais nos campos político e econômico são fundamentais para a superação do subdesenvolvimento. Nesse sentido, mudanças superficiais não são suficientes, basta ver o caso brasileiro. Houve aqui, industrialização, modernização e crescimento econômico, porém, como não ocorreram mudanças estruturais, o desenvolvimento não foi alcançado. Prevaleceu em seu lugar, tensões sociais (marginalidade e exclusão) causadas pela concentração de renda e de terra, endividamento externo, dependência tecnológica e instabilidade política.
Para Celso Furtado, a industrialização é a via principal, para superar o subdesenvolvimento. No entanto, a industrialização somente produz desenvolvimento,
quando ela é fomentada pelo mercado interno e é conduzida por um critério social. Um projeto de desenvolvimento que se assenta em tais bases, promove, além de crescimento econômico, bem-estar social, liberdade, cidadania e integração nacional. Nas palavras de Celso Furtado (citado por Pínio de Arruda Sampaio Júnior, 1999:171):
“O que caracteriza o desenvolvimento é o projeto social subjacente. O crescimento, tal qual o conhecemos, funda-se na preservação dos privilégios das elites que satisfazem seu afã de modernização. Quando o projeto social dá prioridade à efetiva melhoria das condições de vida da maioria da população, o crescimento se metamorfesia em desenvolvimento. Ora, essa metamorfose não se dá espontaneamente. Ela é fruto da realização de um projeto, expressão de uma vontade política.”
Na concepção de Celso Furtado, um desenvolvimento auto determinado e auto sustentado, somente se realizam com a participação estatal. Ou seja, o Estado é o instrumento responsável pela promoção do desenvolvimento, à medida que é o único, capaz de identificar e perseguir as necessidades sociais. Além disso, como a classe empresarial dos países periféricos tende à debilidade, o Estado é decisivo, tanto, na alocação de recursos, quanto, nos investimentos em setores estratégicos da economia. O Estado brasileiro dos anos 1930 e 1950 desempenhou exatamente esse papel; entretanto, Furtado reconhece as debilidades do aparelho estatal brasileiro desse período, principalmente aquelas ligadas ao autoritarismo e a instabilidade institucional do sistema de poder.
Nessas circunstâncias, Celso Furtado considera, que o Estado deve ser reformulado institucionalmente, para que assim possa desempenhar com eficiência a função de promotor do desenvolvimento econômico. Concomitante à reformulação do Estado, a sociedade deve exercer uma opinião pública aberta e uma cidadania exigente, impedindo assim, a degeneração do aparelho estatal. Percebe-se então, que Furtado é um severo crítico do projeto de desmantelamento do Estado e da entrega da economia nacional ao controle de grupos estrangeiros.
Em relação ao papel desempenhado pelo mercado no processo de industrialização, Celso Furtado desafia a idéia de que a economia de mercado tende ao equilíbrio automático e a eficiência máxima. Pelo contrário, sem a presença do Estado, o mercado é ineficiente, pois, além, de não ser capaz de promover as mudanças estruturais necessárias ao desenvolvimento, visa beneficiar exclusivamente o grande capital. Em suas palavras (1998:62):
“Essa visão global do capitalismo industrial levou-me à conclusão de que a superação do subdesenvolvimento não se daria das simples forças do mercado, exigindo um projeto político voltado para a mobilização de recurso sociais que permitisse empreender um trabalho de reconstrução de certas estruturas.”
Ao associar o desempenho do mercado à presença do Estado, Furtado não está negando o papel do empresário na construção de um projeto desenvolvimentista, apenas está chamando atenção, para o fato, de que é o Estado quem define os espaços de atuação da iniciativa privada. A dinâmica social, política e econômica dos Estados Unidos é nesse sentido, exemplar para Celso Furtado, justamente porque o traço distintivo do desenvolvimento norte-americano está na atuação decisiva do Estado e no papel desempenhado pelo empresário privado.
A participação estatal na captação e alocação de recursos destinados à industrialização deve ser orientado por um planejamento de base macroeconômica. Segundo Furtado, o planejamento é indispensável para a eficiência da industrialização em países dependentes. Um programa de desenvolvimento econômico, sustentado por um planejamento global, tem maiores possibilidades de estabelecer metas específicas de desenvolvimento, a médio e longo prazo, aumentando assim, a eficácia do processo de industrialização. Fica evidente, portanto, que a reconstrução de um sistema econômico, na concepção furtadiana depende de um programa sistemático de coordenação de decisões. Sobre isso Celso Furtado escreveu (1999: 80):
“... o planejamento aumenta a eficácia do Estado. Minha convicção é que uma economia subdesenvolvida como a do Brasil necessita de um planejamento (...) numa economia como a brasileira, que tem imenso atraso acumulado, desequilíbrios regionais e setoriais, (...) abandonar a idéia de planejamento é renunciar à idéia de ter governo efetivo.”
Dentro dessa perspectiva analítica, Celso Furtado considera que planejar, não significa impor metas ou prioridades ao modelo de desenvolvimento. Pelo contrário, todo planejamento deve contar com certa dose de criatividade e de improvisação, para ser capaz de adaptar-se às mudanças que ocorrem na sociedade. O contra exemplo de planejamento para Furtado, é o que foi realizado na União Soviética, pois, ele representou em última instância, a perda de todo o potencial de renovação do sistema econômico soviético.
A superação do subdesenvolvimento, no caso, o brasileiro, implica também, na realização de reformas. Caberá à reforma fiscal, modificar a forma anti-social como se financia os investimentos realizados através do setor público. A reforma administrativa deverá alterar a forma como os órgãos públicos são dirigidos, ou seja, ela deverá substituir o interesse privado pelo social. Por fim, caberá à reforma agrária, modificar a estrutura fundiária brasileira, substituindo a concentração de terra pela redistribuição de terra. A execução de reformas de cunho social age diretamente sob as estruturas arcaicas dos países periféricos possibilitando, o desenvolvimento das mesmas. Furtado reconhece, que mudanças estruturais, geram tensões, porém, sem mudanças, e sem tensões, não há desenvolvimento. Sendo assim, qualquer país periférico que queira se desenvolver terá que saber administrar tais tensões. Nesse sentido, programas de desenvolvimento que em nome da estabilidade, mantém as estruturas econômica, social e política intocáveis, estão fadados à ineficiência. Na concepção furtadiana, a estabilidade é fruto do desenvolvimento, e logo, não vem antes dele.
Embora Furtado tenha estabelecido as diretrizes para a superação do subdesenvolvimento brasileiro, reconhece que esse não foi superado. Pelo contrário, nos dias atuais, os vínculos de dependência foram aprofundados, em decorrência do processo de globalização.

A globalização e a manutenção do subdesenvolvimento brasileiro
Segundo Celso Furtado, a história econômica brasileira caracteriza-se prioritariamente por surtos desenvolvimentistas. Como o Brasil não foi capaz de romper com suas estruturas anacrônicas (concentração de riqueza, desemprego, inflação e desigualdades regionais), o tipo de industrialização que aqui prevaleceu não propiciou a evolução social. Em seu lugar, predominou políticas econômicas de cunho recessivas e com elevado custo social. A reflexão de Furtado, evidencia portanto, que falta à classe dirigente uma percepção objetiva, tanto dos problemas, quanto das potencialidades da economia brasileira. Isso se traduz em última instância, em projetos políticos incoerentes e voltados exclusivamente para o lucro fácil e para o mercado externo.
Sob a perspectiva de Furtado, a globalização representa o agravamento do hiato civilizatório entre centro e periferia, pois, além de provocar o crescente endividamento externo dos países dependentes, ainda cristaliza as desigualdades sociais. Ou seja, o capitalismo global, estimula um crescimento econômico altamente excludente e recessivo.
A globalização é posta aos países periféricos como um imperativo histórico, do qual não se pode escapar. O grande desafio dos países subdesenvolvidos, segundo a concepção furtadiana é conceber um modelo de desenvolvimento, que leve em conta as particularidades de cada país tendo em conta os constrangimentos do quadro internacional. Nesse sentido, Furtado é extremamente crítico às políticas monetárias contracionistas ditadas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), pois, elas provocam a esterilidade da economia e atrofiam ainda mais as estruturas arcaicas do país.
Na ausência de um projeto de desenvolvimento nacional, a economia brasileira fica sob a tutela do capital financeiro internacional. Nessas circunstâncias, a classe dirigente assiste passivamente à liquidação do patrimônio público e à degradação do sistema econômico brasileiro. Diante da ausência de racionalidade substantiva (racionalidade orientada pelo interesse social) e do atraso político da classe dirigente brasileira, o Estado fica totalmente a mercê do comando internacional, passando a adotar políticas monetárias, com notória tendência para a concentração de riqueza. A política atual de altas taxas de juros, endividamento externo e de substituição de uma inflação aberta por uma embutida (déficit em conta corrente da balança de pagamentos) aprofunda a crise da economia brasileira. (Celso Furtado, 1999)
Enfim, segundo Furtado, não se recupera uma economia apoiando-se exclusivamente no mercado externo, pelo contrário, a globalização agrava a dependência e logo, o subdesenvolvimento. Por essa razão, Celso Furtado, mostra-se extremamente temeroso, a respeito do futuro da Nação brasileira. Em suas palavras (1999: 26):
“Em nenhum momento de nossa história foi tão grande à distância entre o que somos e o que esperávamos ser. (...) Se prosseguirmos no caminho que estamos trilhando desde 1994, buscando a saída fácil do endividamento externo e do setor público interno (...) o sonho de construir um país tropical capaz de influir no destino da humanidade ter-se-á desvanecido.”

Fonte:
PEREIRA, Cláudia Gonçalves. Celso Furtado e a Teoria do Subdesenvolvimento. Sociedade Brasileira de Sociologia. XII Congresso Brasileiro de Sociologia. Grupo de Trabalho 13: Pensamento Social no Brasil.




Cap. 03                           Teoria da Dependência Econômica

A explicação da “dependência” e a produção intelectual dos autores influenciados por essa perspectiva analítica obtiveram ampla repercussão na a América Latina no final da década de 1960 e começo da década de 1970, quando ficou evidente que o desenvolvimento econômico não se dava por etapas, um caminho que bastaria ser trilhado para que os resultados pudessem ser alcançados.
Para a teoria da dependência a caracterização dos países como "atrasados" decorre da relação do capitalismo mundial de dependência entre países "centrais" e países "periféricos". Países "centrais", como centro da economia mundial será identificado nos espaços em que ocorrem a manifestação do meio técnico científico informacional em escala ampliada e os fluxos igualmente fluam com mais intensidade. A periferia mundial (países periféricos) se apresente como aqueles espaços onde os fluxos, o desenvolvimento da ciência, da técnica e da informação ocorram em menor escala e as interações em relação ao centro se deem gradativamente. A dependência expressa subordinação, a ideia de que o desenvolvimento desses países está submetido (ou limitado) pelo desenvolvimento de outros países e não era forjada pela condição agrário-exportadora ou pela herança pré-capitalista dos países subdesenvolvidos, mas pelo padrão de desenvolvimento capitalista do país e por sua inserção no capitalismo mundial dada pelo imperialismo. Portanto, a superação do subdesenvolvimento passaria pela ruptura com a dependência e não pela modernização e industrialização da economia, o que pode implicar inclusive a ruptura com o próprio capitalismo.


Origens da teoria da dependência

A teoria da dependência surge na década de 1960 para repensar o modelo cepalino, isto é, desenvolvido pela CEPAL (da Organização das Nações Unidas — ONU), e oferecer uma alternativa de interpretação da dinâmica social da América Latina. Portadora de um método analítico mais sofisticado, ela suplantou com facilidade o estagnacionismo, que havia sido abraçado pelos remanescentes do nacional-desenvolvimentismo, e transformou-se na crítica mais consistente ao desenvolvimento autoritário, que países como Brasil, a partir de 1964 começara a aderir.
Após o golpe de 1964, firmou-se no Brasil o desenvolvimentismo autoritário, que foi calcado na teoria do desenvolvimento equilibrado de Rosenstein-Rodan, Ragnar Nurkse, Arthur C. Lewis e outros teóricos dessa vertente da teoria do desenvolvimento.
Foi ainda nessa mesma época que surgiu o pensamento dos neomarxistas, com o modelo de desenvolvimento do subdesenvolvimento, e ainda sofrendo forte influência dos marxistas americanos, como Paul A. Baran e Paul Sweezy, e das teses de Trotsky para os países atrasados (baseadas na lei de desenvolvimento desigual e combinado). André Gunder Frank, Theotonio dos Santos e Rui Mauro Marini não viam possibilidade de desenvolvimento capitalista autônomo e pleno no Brasil e na América Latina, mas apenas de um subdesenvolvimento ao qual esses países estariam condenados, apesar do processo da industrialização, ao menos que houvesse uma revolução socialista.


Dependência e o Imperialismo
A perspectiva teórica dos autores da teoria da dependência era entender o imperialismo sobre os países periféricos, as chamadas "colônias" e "semi-colônias", à medida que os grandes autores da Segunda Internacional - Lênin, Trotski, Rosa Luxemburgo, Karl Kautsky, Bukharin, Hilferding - haviam estudado o fenômeno o enfocando sobre os países centrais do capitalismo mundial (os países imperialistas), tendo como recorte analítico o caso particular do desenvolvimento dos países latino-americanos.

Desenvolvimento dependente: centro e periferia
Os teóricos da dependência, viam desenvolvimento e subdesenvolvimento como posições funcionais dentro da economia mundial, ao invés de estágios ao longo de uma escala de evolução das nações.
A teoria da dependência trata do relacionamento das economias dos países chamados "periféricos" com as economias dos países chamados "centrais" ou "hegemônicos", e que estas relações econômicas "dependentes" por parte dos países periféricos em relação às economias centrais, criavam redes de relações políticas e ideológicas que moldavam formas determinadas de desenvolvimento político e social nos países "dependentes" ou "periféricos".

Dependência, setor externo e extração do excedente
Um dos temas mais discutidos pela teoria da dependência é a questão da extração do excedente econômico gerado nos países atrasados pela ação do capital estrangeiro, o que está fortemente vinculado a como as estruturas sócio-econômicas internas se articulam com o capital externo. Afirmar-se na teoria da dependência o papel principal que cumpre o capital estrangeiro na extração do excedente, entendido aqui como valor excedente, como mais-valia, produzido internamente, e na reprodução da dependência. Esse aporte permite os estudos de como se deram as relações de dependência e de extração do excedente, com a visão tradicional sobre o mesmo, expressa na teoria econômica ortodoxa e nas teorias da modernização, contrapondo no caso brasileiro desde o pós-guerra aos dias de hoje.
O capitalismo dependente, o conceito que os autores da teoria da dependência esgrimiram contra as teses cepalinas, surge centrado nos efeitos integradores da substituição de importações, e não desintegradores ao mercado externo, que encontra expressão crescente na América Latina a partir do fim da década de 1960. Cada vez mais, altas taxas de importação e exportação associadas a um mercado interno reduzido pela brutal desigualdade de renda são um cenário característico da região.

Dependência e divisão internacional do trabalho
Para a teoria da dependência a caracterização dos países em "atrasados" decorre da relação do capitalismo mundial de dependência entre países centrais (América do Norte, Europa Ocidental e Japão) e países periféricos (América Latina, África e Ásia).
A Dependência, como bem destacou Theotonio dos Santos, não era forjada pela condição agrário-exportadora ou pela herança pré-capitalista dos países subdesenvolvidos mas pelo padrão de divisão internacional do trabalho do capitalismo moderno, dada pelo imperialismo. A divisão se dá entre países cujos seus capitais centralizam o processo de acumulação capitalista mundial e possuiu parques industriais baseados no que há mais avançado em tecnologia, e países que exportam mais-valia, são fornecedores de mão-de-obra e recursos naturais baratos e possuem parques industriais especializados em produtos de baixo valor agregado e/ou tecnologia.

Dependência e superexploração do trabalho
O conceito de superexploração do trabalho foi estabelecido no final da década de 1960, enfatizado sua relação com a gênese e funcionamento da acumulação capitalista. A partir da condição de dependência, a burguesia nacional dos países periféricos mesmo após a industrialização e modernizações do século XX, torna-se sócia minoritária do capital transnacional, tendo que repartir a mais-valia gerada internamente com eles.
Para compensar essa menor participação na repartição da acumulação gerada em seu próprio país, a burguesia nacional dos países periféricos utiliza-se de mecanismos extraordinários de exploração da força de trabalho, que visam ampliar a mais-valia extraída do trabalho, a superxploração do trabalho. Assim explicava-se a situação latino-americana de precariedade das condições de trabalho, baixos salários e longas jornadas.

Nova dependência
A re-alimentação da dependência e a manutenção do subdesenvolvimento, apesar da industrialização interna, foi definida como "nova dependência". Os capitais e as atividades econômicas mais dinâmicas das economias nacionais periféricas passaram a estar em mãos das empresas transnacionais e que determinam portanto a dinâmica interna da economia.
A dependência quer era antes marcada pelas trocas desiguais externas passa a ser exercida pela dependência de tecnologias, direitos autorais e investimentos diretos externos, o endividamento externo, a imposição de políticas monetaristas e neoliberais pelos organismos multilaterais, o envio de remessas de lucros e os fluxos de capitais especulativos.

Dependência e processos sociais
Na perspectiva da teoria da dependência a dependência não é um processo externo mas também interno, determinado pela luta de classe no plano nacional. A teoria da dependência nasce em parte a partir de uma linha de investigação sobre a estrutura das classes dominantes no Brasil, na que se propõe revelar os termos da complexidade da formação social brasileira, especialmente a disposição dos sujeitos sociais do capitalismo nacional, a partir do método marxista dO Capital na tentativa de investigar as estruturas sociais internas de reprodução do subdesenvolvimento nos países latino-americanos.
O conceito do feudalismo aplicado a América Latina foi um dos pontos iniciais das batalhas conceituais que indicavam profundas implicações teóricas do debate sobre desenvolvimento. A definição que qualificava o caráter das economias coloniais como feudal servia de base para as propostas políticas que apontavam à necessidade de uma revolução burguesa, limitando a luta revolucionária do proletariado latino-americano. O que era condenado pelos autores da dependência, mas, sem subestimar o obstáculo representado pela hegemonia das relações servis ou semi-servis na formação de uma sociedade civil capaz de conduzir a uma luta revolucionária. A América Latina era resultado da expansão do capitalismo comercial europeu no século XVI, surgido para atender as demandas da Europa e se inseriu no mundo do mercado mundial capitalista.
O aporte dessa teoria à análise da realidade social permite portanto investigar que a dependência das economias periféricas, cuja a maioria baseou seu crescimento econômico em modelos exportadores de matérias-primas, produtos primários em geral ou manufaturas, acabou reforçando uma situação de dependência dos capitais e tecnologias produzidos pelos países desenvolvidos (centrais), e essa dependência acabaram limitando as possibilidades de decisão e ação autônomas destes países periféricos, impedindo que o centro político das forças sociais locais nesses países se sobrepusessem ao mercado e conquistassem maior autonomia política. Há uma endêmica debilidade da burguesia nacional e uma disposição para converte-se em associada menor do capital internacional. Havia portanto um limite histórico do projeto nacional e democrático e do populismo conduzido pelos sérios limites de classe, apesar de ter se desenvolvido intelectualmente através de vertentes de pensamento como o ISEB ou a CEPAL.
Para os autores da dependência, embora que, as forças sociais, políticas, econômicas e ideológicas no mundo contemporâneo podem ser mobilizadas para deter as tendências à superexploração, à nova dependência e ao subimperialismo, a conclusão dependentista é que era contraproducente ao proletariado latino-americano fazer aliança com as suas respectivas burguesias nacionais, como defendiam as teses cepalinas e marxistas stalinistas, à medida que esta classe, embora em algumas circunstâncias  tivessem atritos com a burguesia internacional ou com as oligarquias agroexportadoras locais, ao final sempre se alinharia com ambas. A aliança de classe no interior do país dependente seria entre o proletariado urbano, às classes médias e o campesinato.

Seria possível portanto identificar quatro formas históricas da dependência:
·         A primeira delas seria a dependência colonial, com tradição na exportação de produtos in natura e na qual o capital comercial e financeiro, em aliança com os estados colonialistas, domina as relações entre a Europa e as colônias.
·         A segunda seria a dependência “financeiro-industrial” que se consolida ao final do século XIX, sendo caracterizada pela dominação do grande capital nos centros hegemônicos, cuja expansão se dá por meio de investimentos na produção de matérias-primas e produtos agrícolas para seu próprio consumo.
·         E a terceira, consolidada na década de 1970, seria a dependência tecnológico-industrial, baseada nas corporações multinacionais que investem na indústria voltada para o mercado interno dos países subdesenvolvidos, forçando a que estes importem maquinaria e matérias-primas para o desenvolvimento de suas indústrias e que paguem royalties para sua utilização.
·         Consequentemente, a quarta seria esta "neoliberal", surgida na década de 1990.