Colégio
Estadual Colina Azul
Disciplina: Filosofia Profª: Ariane Marzzio
3º série do Ensino Médio
I Bimestre
A Genealogia Moral de Nietzsche
Anderson Rodrigo Oliveira
Analisando as obras Genealogia da moral
e Além do bem e do mal de Friedrich Nietzsche, detectamos alguns pontos das
proveniências dos valores morais. Nietzsche ressalta a inversão sofrida por
estes valores devida às oscilações nas relações de poder. Por isso, quase toda
a obra girará em torno da questão do valor: o que é bom? Remete-se esta questão
aos impulsos.
Como filólogo de formação, Nietzsche
aprofunda-se no estudo do juízo de valor bom e, consequentemente, do juízo de
valor ruim. O gênio provocativo de Nietzsche traz, assim, um texto com certo
teor sarcástico. Verificamos facilmente este aspecto já na primeira das três
dissertações de a Genealogia.
As questões levantadas pelos homens da
época de Nietzsche, em especial pelos psicólogos ingleses, na avaliação
nietzschiana, não trazem a proveniência do juízo de valor bom e de ruim, pois
"[...] estão aplicados à mesma tarefa: [...] colocar em evidência [...](o
lado vergonhoso) de nosso interior". O que importa na psicologia
nietzschiana é a busca da verdade de uma força imparcial, o oposto do
pensamento dos psicólogos ingleses, conforme escreve:
[...] desejo de coração que se dê
precisamente o oposto – que esses pesquisadores e microscopistas da alma sejam
na verdade criaturas valentes [...], que saibam manter em xeque seu coração e
sua dor [...] à verdade, a toda verdade, até mesmo à verdade chã, acre, feia,
repulsiva, amoral, acristã... Porque existem tais verdades.
Quando pensa em verdades, Nietzsche quer
expressar a interpretação, a perspectiva a que cada um se pauta. O intuito de
Nietzsche é o de construir uma história da moral, que ele expressara na obra
Além do bem e do mal. Desse modo, a Genealogia é uma crítica, uma verificação
que Nietzsche faz do duplo aspecto que existe nos juízos de valores.Sua crítica
vai além da perda de um referencial (Deus), chegando à afirmação de uma
diferença que se origina nas forças (ativas e reativas).
Na análise de Nietzsche, a moral nasce
de duas aplicações: por aquilo que é útil, pois "[...] as ações
não-egoístas foram louvadas e consideradas boas por aqueles aos quais eram
feitas, aqueles aos quais eram úteis". Essa perspectiva de uma moral útil
é a que os psicólogos ingleses apregoam e é a primeira crítica nietzschiana, já
que o utilitarismo não entra em sua moral. Esta aplicação da origem da moral no
louvor e nas ações não-egoístas foi esquecida mais tarde. Isso fez com que se
adquirissem ações altruístas através do costume da linguagem, como se as coisas
fossem boas em si mesmas. Temos, aqui, a segunda aplicação da origem da moral,
o que leva Nietzsche a fazer um corte com os universais, com a metafísica e com
o cristianismo.
Atrelados à utilidade moral que os
psicólogos ingleses consideram, estão o esquecimento, o hábito, e o erro. Isso
tudo apenas serve para dar base a uma valoração da qual o homem se sente
orgulhoso e um privilegiado. O orgulho a tal valoração deve ser humilhado e a
valoração desvalorizada, pois é o que fundamenta a teoria que estabelece a
fonte do conceito de bom no lugar errado, já que o juízo bom não provém
daqueles que se fizeram o bem. Esse pensamento de que o conceito de bom nasce
daqueles que através de uma prática que consideram como boa enquadra-se numa
perspectiva utilitarista.
Toda a conceituação do bom e do ruim,
originada na antítese da divisão das classes sociais, nasce do pensamento de
que o homem é um ser dominante. Isso está inteiramente intrínseco em seus
impulsos. No impulso de dominação é que a Genealogia da moral encontrou sua
real expressão. Para defender sua perspectiva de que a moral nasce da
dominância, Nietzsche faz uso da filologia indo às análises morfológicas das
palavras bom e ruim.
Nietzsche escreve que "[...] a
origem do juízo de valor bom é historicamente insustentável, em si mesma ela
sofre de um contra-senso psicológico". O juízo de valor bom refere-se
àquilo que é nobre, que traz felicidade, que é caro aos deuses. No alemão, Gut
(bom) refere-se ao divino (Got)e ao homem de linhagem divina.
Analisando a palavra alemã schlecht
(ruim), Nietzsche descobre que é idêntica a schlicht (simples). Então, ele
chega ao schlechtweg (simplesmente) que, desde suas origens, traz a função de
designar o homem simples, plebeu. Isso nos prova que as palavras nascem dentro
das circunstâncias, revelando que a classe dominante acabou associando à classe
plebéia o conceito daquilo que é ruim, o oposto, a antítese da classe nobre.
Por isso, os homens que se sentem e são privilegiados, ou a classe nobre, são
os que espalham o conceito do que é bom, do que é bondade, do que é nobreza.
Ao analisar a palavra mau, que vem de
malus no latim e de melas (negro) no grego, percebe-se que ela é usada para
designar "[...] o homem comum como homem de pele escura, sobretudo como de
cabelos negros". O bom, o nobre, o puro é o de cabelos loiros, o que faz
oposição com o indivíduo de cabelos negros. Com isso, a conceituação ganhou um
caráter estritamente político.
Em sua conceituação extremamente humana,
colocando o homem no centro das ações, Nietzsche cria teses totalmente
contrárias à dos psicólogos ingleses. No campo da religião, faz uma ferrenha
crítica à chamada casta sacerdotal. Essa casta cria como que uma alienação nos
indivíduos, pois arroga a si uma posição de preeminência espiritual,
colocando-se como mais elevada e proferindo coisas que lembrem sua função e
posição. Isso gera a contraposição entre puro e impuro, entre bom e ruim. Essa
casta sacerdotal domina todos os estamentos da sociedade: a classe nobre e a
classe plebeia.
Contra essa dominação, Nietzsche defende
que a moral deve nascer da imparcialidade. Não há necessidade de se levar em
consideração os valores trazidos pela classe dos sacerdotes nem tampouco pela
classe dos nobres. Contudo, fazendo ainda um estudo psicológico da genealogia,
Nietzsche constata que a verdade quanto ao que é bom e ao que é ruim adquire
uma nova faceta se olhada pelo lado da plebe. Na classe dominada, o conceito de
ruim se atribui à nobreza, pois esta, com suas repreensões, castiga, maltrata,
despreza a classe mais baixa. Desse modo, se for perguntado ao escravo quem é o
ruim, ele indicará seu senhor.
Tudo isso explica porque o homem só
consegue pensar em relação ao pensamento de outros. O bom é aquilo que o homem
achou útil para si, vindo do outro. A utilidade mesquinha, a referência a
outros para pensar e agir tornam-se, para Nietzsche, uma origem marcada de uma
inércia duvidosa e de um hábito sem graça. Isso somente distancia o homem
daquilo que é realmente autêntico.
Essa dupla designação interpretada por
Nietzsche a respeito dos valores de bom e de mal, bom e ruim abre duas
perspectivas divergentes tanto em questão de interpretação quanto de avaliação.
É da interpretação e da avaliação que procedem os juízos de valor. Notamos,
então, tendo em vista as configurações morais das quais se edificam as
interpretações e as avaliações, a existência de duas tendências morais
distintas. Consequentemente, essa dupla interpretação e avaliação fará
referências a dois tipos diferentes de homem: aquele que é nobre e senhor, e
aquele que é desprezível e escravo.
Dentre as diversas morais existentes,
entre as mais finas e as mais grosseiras, Nietzsche reúne seus traços mais comuns
e chega a, pelo menos, dois tipos básicos e uma diferença fundamental. Em Além
do bem e do mal, obra escrita antes de a Genealogia, Nietzsche diz que
"[...] Há uma moral dos senhores e uma moral de escravos [...]",
ressaltando que em todas as culturas, sejam elas consideradas superiores e
outras inferiores, percebe-se tentativas de mediação entre esses dois tipos
distintos. O que não as isenta, também, de gerar, com frequência, diversas
confusões e incompreensões mútuas.
Na condição de que há duas fontes para o
nascimento dos valores morais, um deles tem que prevalecer e estabelecer-se
sobre a outra. Dentre as muitas diferenças que separam a moral de senhores da
moral de escravos, uma das mais importantes relaciona-se à afirmação da
diferença. A moral de senhores tem como base o sentimento de distância e
superioridade para, assim, fazer as avaliações. Em contrapartida, a moral de
escravos baseia suas avaliações na igualdade e na fraqueza. Isso desemboca num
antagonismo, separando as duas morais e, também, explicando a relação entre
senhor e escravo. O primeiro toma o segundo como desprezível, considerando-o
covarde, medroso, mesquinho. Por outro lado, o escravo rebaixa-se a si mesmo,
desconfia do senhor e se deixa maltratar.
O fundamento da moral de escravo se dá
no medo. Ele teme os que apresentam força e potência que sejam diferentes à
sua. Diante desse temor, cria-se uma moral em defesa da coletividade. Por não
possuir impulsos que possam colocá-lo acima da coletividade, o escravo opta por
uma moral generalizada e não particularizada ou individualizada. A
generalização que o escravo faz é uma reação de medo diante do que lhe é
diferente.
A moral de escravo torna-se uma moral de
autodefesa e suas avaliações são sua evidente característica. A avaliação dessa
moral estabelece que o bom é o que favorece a coletividade. O mau, em
contrapartida, é aquilo que ameaça essa coletividade.
Já o homem nobre, junto com sua moral,
consegue elevar o tipo de homem que é fazendo deste homem o criador dos valores.
Isso o distingue dos demais, evidenciando o tipo de avaliações que estabelece
sobre a vida e sobre si mesmo. O nobre acredita poder ser o responsável pelas
bases às quais os valores se estabelecem, "[...] ele julga: 'o que me é
prejudicial é prejudicial em si', sabe-se como o único que empresta honra às
coisas, que cria valores". Os conhecimentos que faz de si são honrados, ou
seja, o nobre constrói uma moral da glorificação de si mesmo, que consegue com
prazer exercer com vigor e dureza consigo e venerando tudo o que é rigoroso e
duro.
Mas a moral de escravo tende a se
rebelar. Essa rebelião começa quando o ressentimento desse tipo de moral
torna-se criador e gerador de valores. Na Genealogia, Nietzsche escreve que
"[...] toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesmo, já de início
a moral escrava diz Não a um 'fora', um 'outro', um 'não eu' – e este Não é seu
ato criador". A inversão que estabelece valores é algo próprio do
ressentimento. A moral escrava, para nascer, pede um oposto, uma exterioridade,
requer estímulos exteriores para agir em absoluto, o que torna sua ação uma
reação. Nietzsche escreve que esse contrário sucede no modo de valoração do
nobre, agindo e crescendo com espontaneidade, buscando seu oposto para apenas
dizer sim a si mesmo com maior júbilo e gratidão. Desse modo, o conceito
negativo de o baixo, comum, ruim é apenas imagem de contraste em relação ao
conceito positivo dos nobres, bons e felizes.
O homem, naturalmente, seja nobre ou
escravo, avalia e confere sentido às coisas, pois é vontade de potência. O
escravo, por seu lado, inverte, sem querer dizer que não realize uma avaliação,
mas que não se torna criação. É uma inversão, uma transformação, uma
transmutação dos valores. Ao transmutar, ou inverter, os valores de sua moral
de escravo, ele estabelece sua moral como dada, como algo efetivo, além de
qualquer reflexão. O objetivo de absolutizar sua moral está no fato de o
escravo ter como pano de fundo aquela autodefesa citada anteriormente, que visa
dissimular o medo através da universalização de seus próprios preceitos. Dessa
forma, toda interpretação moral será vista como a moral única e de validade
incondicional, o que torna os preceitos dessa moral intocados e
inquestionáveis. Em contrapartida, é uma moral que disfarça a antipatia da vida
e que tem como mote uma vida degenerada em que a diferença e a afirmação são
substituídas pela igualdade e pela negação. O escravo, por ser considerado um
desprezível, avalia sua realidade a partir de seu tipo de vida decadente. Para
Nietzsche, remover a máscara é algo necessário e se faz pela identificação da
moral que prescreve um valor como valor. Com esse desmascaramento é possível de
se determinar qual o valor dos valores. É o absolutizar dos valores e
considerá-los como supremos, supervalorizando-os acima de qualquer outra
perspectiva ou interpretação contrária.
Em Nietzsche notamos a percepção que
tinha de que, mesmo que todos os valores e ideais considerados supremos
anteriormente na história humana tenham se desvalorizado, a vida do homem
continua. É certo que não vivemos sem referencial: precisamos de valores que
sejam ponto de referência para nossas ações, afinal, não vivemos sozinhos, não
vivemos isolados, por mais individualista que esta nossa sociedade queira se
proclamar. Os valores, contudo, não se constituem num algo-em-si. São pontos de
vista, são aquilo que, conforme uma perspectiva, colocam-se como preservação e
progresso da vida.
Quando Nietzsche diz que Deus está
morto, retira da sociedade toda e qualquer base de valoração. É necessário
buscar, então, um novo parâmetro para os valores. Caso contrário, as pessoas
vão se tornando cada vez mais materialistas, individualistas, mercantilistas.
Não somos máquinas, tampouco somos meras mercadorias. A dignidade humana cada
dia mais vem perdendo seu espaço e significado em nossas sociedades, em nossas
vidas, em nossas relações.
Com sua obra, Nietzsche não só demonstra
um gênio perturbado com as relações dos homens, mas também nos perturba,
levando-nos a questionar os laços relacionais que todos temos. O intuito de a
Genealogia da moral é o de despertar no leitor uma reflexão e uma ação mais
consciente da realidade. Os valores necessitam ser repensados.
Para repensar os valores, é preciso que
encontremos, agora, conceitos extremamente imparciais, desligando-nos de
qualquer tipo de moral que aprisione. As morais baseadas em conceitos
metafísicos tendem ao nada. Os valores tendem a se deteriorar e surgirem novos
valores.
A proposta nietzschiana de um ideal
ascético, um asceticismo diferente do propagado pelos religiosos, é aquele que
coloca o homem no centro. A finalidade desse ideal está nas ações humanas que
se baseiam tão somente nas suas relações, não mais com a vontade divina. Essa
proposta de Nietzsche é radical. Traz uma mudança essencial das tendências que
nos leva a uma antítese.
A salvação deve ser procurada em outra
parte. A obra, quando já elaborada, não necessita do artista para ser tomada a
sério. Por isso, o filósofo nos leva às origens da moral, para, dali, partirmos
para novos valores. Sem isso, o homem estará fadado a sempre encontrar o
fracasso, os valores perderem seus sentidos (niilismo), já que transitamos
entre os valores de acordo com nossas necessidades.
Fica-nos, neste momento, uma questão:
Nietzsche realmente inverteu os valores com algum saldo positivo ou, ao
contrário, sua posição não passa de um niilismo destrutivo levado às ultimas consequências?
Nietzsche concebe o que ele chama de vontade de potência, que é a superação do
niilismo. A metafísica da vontade de potência parece ser a superação do
niilismo, uma vez que este é pensado como apenas uma derrubada dos valores
supremos.
Nietzsche nos abre os olhos da razão e
dos sentimentos para algo mais chão, mais próximo da realidade humana. Resgatar
as origens da moral do homem é resgatar a ele próprio, colocando-o em sua
dignidade de igualdade. As classes existentes apenas distanciam os homens uns
dos outros. Parece até mesmo que Nietzsche pressentia, ou intuía, toda a
sociedade contemporânea em que vivemos hoje. Dia após dia, o homem vai se
tornando mais solitário, mais fechado em seu mundo individual, perdendo
valores, esvaziando-se. Nisso tudo, cada vez mais se perde o sentido da vida, a
finalidade das coisas. Tudo é efêmero, transitório. É a humanidade destruindo a
própria humanidade.
Referências
bibliográficas:
AZEREDO,
Vânia Dutra. Nietzsche e a dissolução da moral. São Paulo: Discurso; Ijuí:
Unijuí, 2000.
NIETZSCHE,
Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: Um escrito polêmico. Trad. Paulo César
Souza. São Paulo: Brasiliense, 1987.
___________.
Além do bem e do mal: Prelúdio a uma filosofia do futuro. Trad. Paulo César
Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
Deus e o homem segundo Sartre
Paulo Leandro Maia
Mestrando em Filosofia –PUC/SP
O
existencialismo sartreano sofreu influências de Husserl, Heidegger, Jaspers e
Max Scheler, dentre outros, chegando até as obras de Kierkergard (1813 – 1855).
Na nova atitude, o filósofo de carne e osso se inclui a si mesmo no pensar, que
até então se propunha objetivamente e distanciado vivido.
Jean
Paul Sartre (1905 – 1890), escreveu O Ser e o Nada, sua principal obra
filosófica, em 1943. Mas em 1938 já
havia publicado o romance A Náusea. Seu pensamento é muito conhecido e gerou,
inclusive uma “moda existencialista”, também pelo fato de ele ter se tornado
famoso romancista e teatrólogo.
Sartre
revolucionou a compreensão de muitos conceitos. Abordaremos algumas
conceituações fundamentais para se compreender sua visão a respeito do homem.
Segundo a concepção tradicional, a essência do homem precede a existência. Não
é essa, no entanto, a posição de Sartre. E sendo ateu, não aceita a concepção
de criação divina a partir de um modelo. Por isso especifica que, ao contrário
das coisas e animais, no homem a existência precede a essência, e isso
significa: “Que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e
quer só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista
(Sartre), se não é definivel, é porque primeiramente não é nada. Só depois será
alguma coisa e tal como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja
após este impulso para a existência; o homem não é mais que o que ele faz. Tal
é o primeiro do existencialismo”.
Qual a diferença entre o homem e as
coisas? É que só o homem é livre. O homem nada mais é do que o seu projeto. A
palavra projeto significa, etimologicamente, ser lançado “adiante”, assim como
o sufixo ex da palavra existir significa “fora”. Ora, só o homem existe, porque
o existir do homem é “para si”, ou seja, sendo consciente, o homem é uma
“ser-para-si”, pois a consciência é auto-reflexiva, pensa sobre si mesma, é
capaz de pôr-se “fora de si”.
Portanto, a consciência do homem o
distingue das coisas e dos animais que são “em si"” ou seja, como não são
conscientes de si, também não são capazes de colocar “ do lado de fora” para se
auto examinarem. O que acontece ao homem quando se percebe “para si”, aberto à
possibilidade de construir ele próprio a sua existência? Descobre, que não
havendo essência ou modelo para lhe orientar o caminho, seu futuro se encontra
disponível e aberto, estando portanto de Dostoiévski em os Irmãos Karamazov:
“Se Deus não existe, então tudo é permitido”, para relembrar que os valores não
são dados nem por deus nem pela tradição: só o próprio homem cabe inventá-los.
Se o homem é livre, é conseqüentemente responsável por tudo aquilo que escolhe e faz. A
liberdade só possui significado na ação, na capacidade do homem de operar
modificações no real.
O homem não é “em si”, ele é “para si”,
que a rigor não é nada, pois se a consciência não tem conteúdo, não é coisa
alguma. Mas esse vazio é justamente a
liberdade fundamental do “para si”, que, movendo-se através das possibilidades,
poderá criar-lhe conteúdo. Eis que o homem, ao experimentar a liberdade, e ao sentir-se como um vazio, vive angustia
da escolha. Muitas pessoas não suportam essa angustia, fogem dela, aninhando-se
na má-fé. A má fé é a atitude característica do homem que finge escolher, sem
na verdade escolher. Imagina que seu destino está traçado, que os valores são
dados; aceitando as verdades exteriores, mente para si mesmo, simulando ser ele
próprio o autor dos seus próprios atos já que aceitou sem criticas os valores
dados. “O ser humano não é somente o ser pelo qual se revelar negatividade no
mundo. É também o que pode tomar atitudes negativas com relação a si.”
O homem sartreano é desamparado, sem
presente, sem chão, voltado para o passado buscando um futuro a ser construído.
Sua moral é da escolha, pois segundo Sartre: O homem é livre para agir, para
engajar-se na luta pela vida da qual o próprio homem é contingente.
Diante
de um período de descrença de valores, hipocrisia da burguesia, Sartre
investiga que ele é, quem são os homens e qual o sentido da vida?
Para Sartre o homem vive de escolhas, e
são através dessas escolhas, dependendo de qual escolha fizer, é que o homem vai manifestar a sua
presença dentro do mundo. O homem primeiramente existe, e durante o processo de
sua existência, ele se torna e vai construindo a essência, ou seja, a
existência precede a essência, a essência é um construtor humano. Com isso,
Sartre quer dizer que o homem é uma construção que se faz mediante a liberdade,
a qual é fruto da sua escolha. “ Quando nasce, o homem é nada. Não existem ideias
inatas, anteriores ao surgimento do homem
e destinadas a orientar sua vida, indicando que caminho ele deve seguir.
As ideias, o homem extraí de sua experiência pessoal. O indivíduo primeiramente
existe; torna-se isto ou aquilo, quer dizer, adquire sua essência”.
O homem deve ser inventado todos os
dias, sintetiza Sartre.
É através da liberdade que o homem
escolhe o que há de ser, escolha sua essência e busca realizá-la. É a
escolha que faz entre as alternativas com que se defronta
que constitui sua essência. E é essa escolha que lhe permite criar seus
valores. Não há como fugir a essa escolha, pois mesmo a recusa em escolher já é
uma escolha. Ao escolher, o homem escolhe sua essência e realiza.
Como se processa a aquisição dessa
essência? Justamente através das nações de projeto e de escolha, já mencionadas
antes. Se o homem primeiramente, não sendo nada a principio, se a ideia de Deus
é eliminada, se cada instante o homem primeiramente existe, se cada instante o
homem tem de escolher aquilo que vai ser, então só a ele cabe criar valores sob os quais dirigirá sua vida.
Criando-os, torna-se responsável por tudo que fizer. O homem, conforme Sartre,
não é nada mais que o seu projeto, só existe na medida em que o realiza através
da série de seus atos. Se, no homem a essência precedesse a existência, ele não
poderia ser livre, pois desde o princípio sua vida estaria predeterminada. O
sucesso ou o fracasso dos atos do homem é sua obra; não lhe é permitido culpar
os outros ou as circunstâncias pelos seus erros.
O mundo é opaco. O homem é definido por
suas ações, e o destino está em sua ação que permite que ele viva.
Quanto do cogito, Sartre diz que o ponto
de partida não pode existir a obridade. A verdade absoluta é o fato do homem
aprender a si mesmo ser um intermediário.
Quando o homem se descobre, quando ele
se compreende, ele não se prostitui, pois à medida que se encontra, o homem
também encontra o outro. A liberdade do homem começa onde começa a do outro e
não termina onde começa a do outro.
É no mundo que o homem descobre o que
ele é e o que são os outros homens, então não é uma subjetividade de relações,
mas de relação. A verdade é dada pelo sujeito que pensa. Quando o homem se
compreende, não o faz de maneira isolada, mas na relação com o outro. O homem
não existe sem os outros homens (eu não existo sem o outro), e o humanismo é
isso, um descobrindo o outro. Para Sartre os projetos humanos são diferentes,
mas o que os torna iguais, é que existe uma universalidade entre eles e podem
ser entendidos porque são maneiras de lidar com o mundo, de manifestar a
existência dele e do outro no mundo. Podemos assim compreender toda a forma de
cultura.
A coerência do homem está no momento que
ele coloca os valores em vida e só depois é que ele pode julgar. Construímos
nós mesmos, na medida que agimos, na media em que o ético se reflete na ação,
onde aquilo que o homem é, aquilo que ele faz e não fala, e que seu discurso se
não for referendado pela prática estará agindo de má fé. A ética só é realidade
na ação, no viver, “Tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de
beber, a salvação esta na ação do homem”.
O homem só acontece na vida moral,
escolhendo a uma moral. Ao buscar um projeto que está na possibilidade de
superação de si próprio é que o homem se realiza.
Para Sartre o homem vai além,
superando-se. O existencialismo não é um ateísmo engajado que se preocupa,
mediante a ação do homem que se preocupa em provar a não existência de Deus,
mas que se preocupa mediante a ação do homem que é o humanismo. “O
existencialismo é uma moral da ação, porque considera a única coisa que define
o homem, é o seu ato. Ato livre por excelência, mesmo que o homem sempre esteja
situado em determinado tempo ou lugar. Não importa o que as circunstâncias fazem
do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele”.
Para Sartre o importante não é se Deus
existe ou não, mas sim entender e compreender o homem e sua humanidade em seu
existir no mundo, mediante a sua ação frente a si e ao outro.
Fonte:
http://www.paradigmas.com.br/parad09/p6.9.htm. Acesso
em 03/02/2013.
Bioética
Débora Carvalho Meldau
A bioética é a ética aplicada à vida e,
abrange temas que vão desde uma simples relação interpessoal até fatores que
interferem na sobrevivência do próprio planeta. Dentro da medicina veterinária,
este termo está intimamente ligado à noção de bem-estar animal. O termo
bioética foi utilizado pela primeira vez no ano de 1970, por um médico
oncologista chamado van Rensselaer Potter.
As principais
razões para seu surgimento foram:
·
Abusos na utilização de animais e seres humanos em
experimentos;
·
Surgimento
acelerado de novas técnicas desumanizantes que apresentam questões inéditas,
como por exemplo, clonagem de seres humanos;
·
Percepção
da insuficiência dos referenciais éticos tradicionais, pois devido ao rápido
progresso científico, torna-se fácil constatar que os códigos de ética ligados
a diferentes profissões não acompanharam o rápido progresso científico, sendo
diversas vezes insuficientes para julgar os temas polêmicos da bioética.
O emprego de descobertas científicas
pode, muitas vezes, afetar positiva ou negativamente a sociedade ou até mesmo o
planeta. Deste modo, a análise das vantagens e desvantagens do emprego de uma
determinada tecnologia ou da realização de certos experimentos deve ser
avaliada por comitês formados por indivíduos de diversas formações. Sendo
assim, pode ser percebido que a bioética envolve profissionais das seguintes
áreas:
·
Tecnociências
(medicina, veterinária e biologia);
·
Humanidades
(filosofia, teologia, psicologia e antropologia);
·
Ciências
sociais (economia e sociologia);
·
Direito;
·
Política.
Os princípios
básicos da bioética são três:
·
Autonomia ou
princípio da liberdade: ele se baseia no fato de que na relação
médico-paciente, este último possui o direito de ser informado sobre seu estado
de saúde, detalhes do tratamento a ser prescrito e tem toda a liberdade de
decidir se irá ou não se submeter ao tratamento determinado. Caso o paciente
não possa decidir, os pais ou responsáveis é que tomam a decisão. Em casos de
experimentos conduzidos com seres humanos, os indivíduos submetidos aos testes
devem receber detalhes dos procedimentos a serem adotados e dar uma
autorização, por escrito, de que deseja participar da pesquisa. Na medicina
veterinária, como o animal não pode tomar essa decisão, cabe ao médico
veterinário fornecer todas as informações sobre o animal e possíveis
tratamentos e obter a autorização do proprietário para a realização dos
procedimentos.
·
Beneficência ou
princípio da não-maleficência: toda e qualquer tecnologia deve trazer
benefícios para a sociedade e jamais causar-lhe malefícios. É fato nos dias de
hoje, que a bioética está mais relacionada aos seres humanos do que aos
animais, pois a maior parte dos experimentos existentes visa beneficiar o homem
e não os animais.
·
Justiça
distributiva:
os avanços técnico-científicos devem beneficiar a sociedade como um todo e não
apenas alguns grupos privilegiados.
A bioética divide-se em dimensões,
também conhecidas como grandes áreas de estudo da bioética, que são:
·
Dimensão
pessoal:
estuda a relação entre os profissionais responsáveis e seus pacientes. A
liberdade do indivíduo ou responsável pelo indivíduo deve ser respeitada;
·
Dimensão social,
econômica e política:
tem como objetivo estabelecer critérios para que seja determinada a alocação e
distribuição de recursos, bem como tentar reduzir as diferenças econômicas e
sociais dentro de um país ou entre países. Dentre os diferentes assuntos que
são abordados nessa área da bioética, destacam-se: alocação de recursos
financeiros; patentes; desequilíbrio entre países ricos e pobres e fome;
·
Dimensões
ecológicas: os
principais temas que fazem parte da pauta de discussão da bioética no campo da
ecologia são proteção ao meio ambiente, exploração dos recursos naturais,
desertificação, poluição, extinção de espécies, equilíbrio ecológico,
utilização de animais e plantas em condições éticas, proteção da qualidade de
vida dos animais, desequilíbrio entre países ricos e pobres, problemas
nucleares e proteção da biodiversidade;
·
Dimensão
pedagógica: trata-se
da discussão de alternativas que visem uma melhora no ensino e aprendizagem nas
instituições;
·
Dimensões
biológicas ou bioética especial: dentro deste grupo da bioética,
destacamos o começo da vida, o diagnóstico pré-natal, o abortamento provocado,
a reanimação do recém-nascido, a engenharia genética e organismos geneticamente
modificados, terapia gênica, eugenia, reprodução medicamental assistida,
clonagem, transplante de órgãos, experimentação animal e em humanos, eutanásia
e distanásia.
A importância das discussões em
bioética, em razão do seu caráter transdisciplinar, é fazer com que a ciência
não utilize indiscriminadamente as novas tecnologias logo que se tornem
viáveis, mas somente apenas após possuir o conhecimento e a sabedoria
suficientes para utilizá-las em benefício da humanidade e não em seu
detrimento. Nesse sentido, a bioética permitirá que a sociedade decida sobre as
tecnologias que lhe convêm.
Fonte:
http://www.infoescola.com/medicina/bioetica/.
Acesso em: 03/02/2013.