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11 de novembro de 2013

Resumo sobre as principais teorias de Max Weber_ 1º ano

Resumo sobre as principais teorias de Max Weber

A Objetividade do Conhecimento

Como é possível, apesar da existência dos valores, alcançar a objetividade nas ciências sociais?

É preciso distinguir entre os julgamentos de valor e o saber empírico. Os valores devem ser incorporados a conscientemente à pesquisa e controlados através de procedimentos rigorosos de análise, caracterizados como esquemas de explicação condicional.

Os Tipos Ideais
Um conceito típico-ideal é um modelo simplificado do real, elaborado com base em traços considerados essenciais para a determinação da causalidade, segundo os critérios de quem pretende explicar um fenômeno.

O tipo ideal é utilizado como instrumento para conduzir o autor numa realidade complexa.

Ação Social
Toda conduta humana dotada de um significado subjetivo (sentido) dado por quem a executa e que orienta essa ação.

A explicação sociológica busca compreender e interpretar o sentido da ação social, não se propondo a julgar a validez de tais atos nem a compreender o agente enquanto pessoa. Compreender uma ação é captar e interpretar sua conexão de sentido, somente a ação com sentido pode ser compreendida pela Sociologia. Em suma: ação compreensível e ação com sentido.


Tipos puros de ação:
Ação racional com relação a fins: ação que visa atingir um objetivo previamente definido, ele lança mão dos meios necessários ou adequados, ambos avaliados e combinados tão claramente quanto possível de seu próprio ponto de vista. Uma ação econômica, por exemplo, expressam essa tendência e permitem uma interpretação racional.

Ação racional com relação a valores: ação orientada por princípios, agindo de acordo com ou a serviço de suas próprias convicções e levando em conta somente sua fidelidade a tais valores. Por exemplo, não se alimentar de carne, orientado por valores éticos, políticos e ambientais.

Ação tradicional: quando hábitos e costumes arraigados levam a que se aja em função deles. Tal é o caso do batismo dos filhos realizado por pais pouco comprometidos com a religião.

Ação afetiva: quando a ação é orientada por suas emoções imediata, como por exemplo, o ciúme, a raiva ou por diversas outras paixões. Esse tipo de ação pode ter resultados não pretendidos, por exemplo, magoar a quem se ama.

Relação Social
Uma conduta plural (de vários), reciprocamente orientada, dotada de conteúdo significativos que descansam na probabilidade de que se agirá socialmente de um certo modo, constitui o que Weber denomina de relação social. Podemos dizer que relação social é a probabilidade de que uma forma determinada de conduta social tenha, em algum momento, seu sentido partilhado pelos diversos agentes numa sociedade qualquer.

Quando, ao agir, cada um de dois ou mais indivíduos orienta sua conduta levando em conta a probabilidade de que o outro ou os outros agirão socialmente de um modo que corresponde às expectativas do primeiro agente, estamos diante de uma relação social. Como exemplo de relação social, as trocas comerciais, a concorrência econômica, as relações políticas.

Estratificação Social
A concepção de sociedade construída por Weber implica numa separação de esferas – como a econômica, a religiosa, a política, a jurídica, a social, a cultural – cada uma delas com lógicas particulares de funcionamento.

Partindo, portanto, do princípio geral de que só as consciências individuais são capazes de dar sentido à ação social e que tal sentido pode ser partilhado por uma multiplicidade de indivíduos, Weber estabeleceu conceitos referentes ao plano coletivo – a) classes, b) estamentos ou grupos de status e c) partidos – que nos permitem entender os mecanismos diferenciados de distribuição de poder, o qual pode assumir a forma de riqueza, de distinção ou do próprio poder político, num sentido estrito.

As classes se organizam segundo as relações de produção e aquisição de bens; os estamentos, segundo princípios de seu consumo de bens nas diversas formas especificas de sua maneira de viver; as castas seriam, por fim, aqueles grupos de status fechados cujos privilégios e distinções estão desigualmente garantidos por meio de leis, convenções e rituais.

Enfim, as diferenças que correspondem, no interior da ordem econômica, às classes e, no da ordem social ou da distribuição da honra, aos estamentos, geram na esfera do poder social os partidos, cuja ação é tipicamente racional: buscar influir sobre a direção que toma uma associação ou uma comunidade. O partido é uma organização que luta especificamente pelo domínio embora só adquira caráter político se puder lançar mão da coação física ou de sua ameaça.

Poder e Dominação
O conceito de poder é amorfo já que significa a probabilidade de impor a própria vontade dentro de uma relação social, mesmo contra toda a resistência e qualquer que seja o fundamento dessa probabilidade.

Dominação é a probabilidade de encontrar obediência dentro de um grupo a um certo mandato.

Poder + Legitimidade = Dominação.

Tipos Puros de Dominação Legítima

Dominação Legal: obedece-se não à pessoa em virtude de seu direito próprio, mas à regra estatuída, que estabelece ao mesmo tempo a quem e em que medida deve obedecer. Seu tipo mais puro é a burocracia.

Dominação Tradicional: se estabelece em virtude da crença ma santidade das ordenações e dos poderes senhoriais de há muito existentes. Seu tipo mais puro é o da dominação patriarcal.

Dominação Carismática: se dá em virtude de devoção afetiva à pessoa do senhor e a seus dotes sobrenaturais (carisma) e, particularmente: a faculdades mágicas, revelações ou heroísmo, poder intelectual ou de oratória. Seu tipo mais puro é a dominação do profeta, do herói guerreiro e do grande demagogo.

Desencantamento do mundo
A humanidade partiu de um universo habitado pelo sagrado, pelo mágico, excepcional e chegou a um mundo racionalizado, material, manipulado pela técnica e pela ciência. O mundo de deuses e mitos foi despovoado, sua magia substituída pelo conhecimento cientifico e pelo desenvolvimento de formas de organização racionais e burocratizadas.

Ética Protestante e Espírito do Capitalismo
O trabalho torna-se um valor em si mesmo, e o operário ou capitalista puritanos passam a viver em função de sua atividade ou negócio e só assim têm a sensação da tarefa cumprida. O puritanismo condenava o ócio, o luxo, a perda de tempo, preguiça.

Para estarem seguros quanto à sua salvação, ricos e pobres deveriam trabalhar sem descanso, o dia todo em favor do que lhes foi destinado pela vontade de Deus, e glorifica-lo por meio de suas atividades produtivas.

A essa dedicação verdadeiramente religiosa ao trabalho, Weber chamou de vocação. Essa ética teve consequências marcantes sobre a vida econômica e, ao combinar a restrição do consumo com essa liberação da procura da riqueza, é obvio o resultado que daí decorre: a acumulação capitalista através da compulsão ascética da poupança. Mas este foi apenas um impulso inicial. A partir dele o capitalismo libertou-se do abrigo de um espírito religioso.

Estado
O Estado é um instrumento de dominação do homem pelo homem, para ele só o Estado pode fazer uso da força da violência, e essa violência é legítima (monopólio do uso legítimo da força física), pois se apoia num conjunto de normas (constituição).


QUESTÕES

01_ O que é o tipo ideal para Weber?

02_ Explique o significado da frase: “Ação compreensível e ação com sentido”, dentro da perspectiva do conceito de ação social.

03_ Quais são os tipos puros de ação social segundo Weber?

04_ Conceitue relação social, de acordo com o texto.

05_ Como Weber explica a estratificação social?

06_ São três os tipos puros de dominação legítima segundo Max Weber. Conceitue e exemplifique cada um deles.

07_ Como podemos explicar o desencantamento do mundo levando em consideração a História Mundial, basicamente após a Idade Moderna?

08_ Estabeleça uma relação entre a ética protestante, analisada por Weber, e o desenvolvimento do capitalismo após a Reforma Protestante.


09_ Justifique a razão pela qual o Estado pode ser considerado um instrumento de dominação.

3 de fevereiro de 2013

Conteúdo para o I Bimestre_ Filosofia_ 3º ano 2013



              Colégio Estadual Colina Azul

          Disciplina: Filosofia      Profª: Ariane Marzzio

   3º série do Ensino Médio


I Bimestre

A Genealogia Moral de Nietzsche

Anderson Rodrigo Oliveira


Analisando as obras Genealogia da moral e Além do bem e do mal de Friedrich Nietzsche, detectamos alguns pontos das proveniências dos valores morais. Nietzsche ressalta a inversão sofrida por estes valores devida às oscilações nas relações de poder. Por isso, quase toda a obra girará em torno da questão do valor: o que é bom? Remete-se esta questão aos impulsos.
Como filólogo de formação, Nietzsche aprofunda-se no estudo do juízo de valor bom e, consequentemente, do juízo de valor ruim. O gênio provocativo de Nietzsche traz, assim, um texto com certo teor sarcástico. Verificamos facilmente este aspecto já na primeira das três dissertações de a Genealogia.
As questões levantadas pelos homens da época de Nietzsche, em especial pelos psicólogos ingleses, na avaliação nietzschiana, não trazem a proveniência do juízo de valor bom e de ruim, pois "[...] estão aplicados à mesma tarefa: [...] colocar em evidência [...](o lado vergonhoso) de nosso interior". O que importa na psicologia nietzschiana é a busca da verdade de uma força imparcial, o oposto do pensamento dos psicólogos ingleses, conforme escreve:
[...] desejo de coração que se dê precisamente o oposto – que esses pesquisadores e microscopistas da alma sejam na verdade criaturas valentes [...], que saibam manter em xeque seu coração e sua dor [...] à verdade, a toda verdade, até mesmo à verdade chã, acre, feia, repulsiva, amoral, acristã... Porque existem tais verdades.
Quando pensa em verdades, Nietzsche quer expressar a interpretação, a perspectiva a que cada um se pauta. O intuito de Nietzsche é o de construir uma história da moral, que ele expressara na obra Além do bem e do mal. Desse modo, a Genealogia é uma crítica, uma verificação que Nietzsche faz do duplo aspecto que existe nos juízos de valores.Sua crítica vai além da perda de um referencial (Deus), chegando à afirmação de uma diferença que se origina nas forças (ativas e reativas).
Na análise de Nietzsche, a moral nasce de duas aplicações: por aquilo que é útil, pois "[...] as ações não-egoístas foram louvadas e consideradas boas por aqueles aos quais eram feitas, aqueles aos quais eram úteis". Essa perspectiva de uma moral útil é a que os psicólogos ingleses apregoam e é a primeira crítica nietzschiana, já que o utilitarismo não entra em sua moral. Esta aplicação da origem da moral no louvor e nas ações não-egoístas foi esquecida mais tarde. Isso fez com que se adquirissem ações altruístas através do costume da linguagem, como se as coisas fossem boas em si mesmas. Temos, aqui, a segunda aplicação da origem da moral, o que leva Nietzsche a fazer um corte com os universais, com a metafísica e com o cristianismo.
Atrelados à utilidade moral que os psicólogos ingleses consideram, estão o esquecimento, o hábito, e o erro. Isso tudo apenas serve para dar base a uma valoração da qual o homem se sente orgulhoso e um privilegiado. O orgulho a tal valoração deve ser humilhado e a valoração desvalorizada, pois é o que fundamenta a teoria que estabelece a fonte do conceito de bom no lugar errado, já que o juízo bom não provém daqueles que se fizeram o bem. Esse pensamento de que o conceito de bom nasce daqueles que através de uma prática que consideram como boa enquadra-se numa perspectiva utilitarista.
Toda a conceituação do bom e do ruim, originada na antítese da divisão das classes sociais, nasce do pensamento de que o homem é um ser dominante. Isso está inteiramente intrínseco em seus impulsos. No impulso de dominação é que a Genealogia da moral encontrou sua real expressão. Para defender sua perspectiva de que a moral nasce da dominância, Nietzsche faz uso da filologia indo às análises morfológicas das palavras bom e ruim.
Nietzsche escreve que "[...] a origem do juízo de valor bom é historicamente insustentável, em si mesma ela sofre de um contra-senso psicológico". O juízo de valor bom refere-se àquilo que é nobre, que traz felicidade, que é caro aos deuses. No alemão, Gut (bom) refere-se ao divino (Got)e ao homem de linhagem divina.
Analisando a palavra alemã schlecht (ruim), Nietzsche descobre que é idêntica a schlicht (simples). Então, ele chega ao schlechtweg (simplesmente) que, desde suas origens, traz a função de designar o homem simples, plebeu. Isso nos prova que as palavras nascem dentro das circunstâncias, revelando que a classe dominante acabou associando à classe plebéia o conceito daquilo que é ruim, o oposto, a antítese da classe nobre. Por isso, os homens que se sentem e são privilegiados, ou a classe nobre, são os que espalham o conceito do que é bom, do que é bondade, do que é nobreza.
Ao analisar a palavra mau, que vem de malus no latim e de melas (negro) no grego, percebe-se que ela é usada para designar "[...] o homem comum como homem de pele escura, sobretudo como de cabelos negros". O bom, o nobre, o puro é o de cabelos loiros, o que faz oposição com o indivíduo de cabelos negros. Com isso, a conceituação ganhou um caráter estritamente político.
Em sua conceituação extremamente humana, colocando o homem no centro das ações, Nietzsche cria teses totalmente contrárias à dos psicólogos ingleses. No campo da religião, faz uma ferrenha crítica à chamada casta sacerdotal. Essa casta cria como que uma alienação nos indivíduos, pois arroga a si uma posição de preeminência espiritual, colocando-se como mais elevada e proferindo coisas que lembrem sua função e posição. Isso gera a contraposição entre puro e impuro, entre bom e ruim. Essa casta sacerdotal domina todos os estamentos da sociedade: a classe nobre e a classe plebeia.
Contra essa dominação, Nietzsche defende que a moral deve nascer da imparcialidade. Não há necessidade de se levar em consideração os valores trazidos pela classe dos sacerdotes nem tampouco pela classe dos nobres. Contudo, fazendo ainda um estudo psicológico da genealogia, Nietzsche constata que a verdade quanto ao que é bom e ao que é ruim adquire uma nova faceta se olhada pelo lado da plebe. Na classe dominada, o conceito de ruim se atribui à nobreza, pois esta, com suas repreensões, castiga, maltrata, despreza a classe mais baixa. Desse modo, se for perguntado ao escravo quem é o ruim, ele indicará seu senhor.
Tudo isso explica porque o homem só consegue pensar em relação ao pensamento de outros. O bom é aquilo que o homem achou útil para si, vindo do outro. A utilidade mesquinha, a referência a outros para pensar e agir tornam-se, para Nietzsche, uma origem marcada de uma inércia duvidosa e de um hábito sem graça. Isso somente distancia o homem daquilo que é realmente autêntico.
Essa dupla designação interpretada por Nietzsche a respeito dos valores de bom e de mal, bom e ruim abre duas perspectivas divergentes tanto em questão de interpretação quanto de avaliação. É da interpretação e da avaliação que procedem os juízos de valor. Notamos, então, tendo em vista as configurações morais das quais se edificam as interpretações e as avaliações, a existência de duas tendências morais distintas. Consequentemente, essa dupla interpretação e avaliação fará referências a dois tipos diferentes de homem: aquele que é nobre e senhor, e aquele que é desprezível e escravo.

Dentre as diversas morais existentes, entre as mais finas e as mais grosseiras, Nietzsche reúne seus traços mais comuns e chega a, pelo menos, dois tipos básicos e uma diferença fundamental. Em Além do bem e do mal, obra escrita antes de a Genealogia, Nietzsche diz que "[...] Há uma moral dos senhores e uma moral de escravos [...]", ressaltando que em todas as culturas, sejam elas consideradas superiores e outras inferiores, percebe-se tentativas de mediação entre esses dois tipos distintos. O que não as isenta, também, de gerar, com frequência, diversas confusões e incompreensões mútuas.
Na condição de que há duas fontes para o nascimento dos valores morais, um deles tem que prevalecer e estabelecer-se sobre a outra. Dentre as muitas diferenças que separam a moral de senhores da moral de escravos, uma das mais importantes relaciona-se à afirmação da diferença. A moral de senhores tem como base o sentimento de distância e superioridade para, assim, fazer as avaliações. Em contrapartida, a moral de escravos baseia suas avaliações na igualdade e na fraqueza. Isso desemboca num antagonismo, separando as duas morais e, também, explicando a relação entre senhor e escravo. O primeiro toma o segundo como desprezível, considerando-o covarde, medroso, mesquinho. Por outro lado, o escravo rebaixa-se a si mesmo, desconfia do senhor e se deixa maltratar.           
O fundamento da moral de escravo se dá no medo. Ele teme os que apresentam força e potência que sejam diferentes à sua. Diante desse temor, cria-se uma moral em defesa da coletividade. Por não possuir impulsos que possam colocá-lo acima da coletividade, o escravo opta por uma moral generalizada e não particularizada ou individualizada. A generalização que o escravo faz é uma reação de medo diante do que lhe é diferente.
A moral de escravo torna-se uma moral de autodefesa e suas avaliações são sua evidente característica. A avaliação dessa moral estabelece que o bom é o que favorece a coletividade. O mau, em contrapartida, é aquilo que ameaça essa coletividade.
Já o homem nobre, junto com sua moral, consegue elevar o tipo de homem que é fazendo deste homem o criador dos valores. Isso o distingue dos demais, evidenciando o tipo de avaliações que estabelece sobre a vida e sobre si mesmo. O nobre acredita poder ser o responsável pelas bases às quais os valores se estabelecem, "[...] ele julga: 'o que me é prejudicial é prejudicial em si', sabe-se como o único que empresta honra às coisas, que cria valores". Os conhecimentos que faz de si são honrados, ou seja, o nobre constrói uma moral da glorificação de si mesmo, que consegue com prazer exercer com vigor e dureza consigo e venerando tudo o que é rigoroso e duro.
Mas a moral de escravo tende a se rebelar. Essa rebelião começa quando o ressentimento desse tipo de moral torna-se criador e gerador de valores. Na Genealogia, Nietzsche escreve que "[...] toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesmo, já de início a moral escrava diz Não a um 'fora', um 'outro', um 'não eu' – e este Não é seu ato criador". A inversão que estabelece valores é algo próprio do ressentimento. A moral escrava, para nascer, pede um oposto, uma exterioridade, requer estímulos exteriores para agir em absoluto, o que torna sua ação uma reação. Nietzsche escreve que esse contrário sucede no modo de valoração do nobre, agindo e crescendo com espontaneidade, buscando seu oposto para apenas dizer sim a si mesmo com maior júbilo e gratidão. Desse modo, o conceito negativo de o baixo, comum, ruim é apenas imagem de contraste em relação ao conceito positivo dos nobres, bons e felizes.
O homem, naturalmente, seja nobre ou escravo, avalia e confere sentido às coisas, pois é vontade de potência. O escravo, por seu lado, inverte, sem querer dizer que não realize uma avaliação, mas que não se torna criação. É uma inversão, uma transformação, uma transmutação dos valores. Ao transmutar, ou inverter, os valores de sua moral de escravo, ele estabelece sua moral como dada, como algo efetivo, além de qualquer reflexão. O objetivo de absolutizar sua moral está no fato de o escravo ter como pano de fundo aquela autodefesa citada anteriormente, que visa dissimular o medo através da universalização de seus próprios preceitos. Dessa forma, toda interpretação moral será vista como a moral única e de validade incondicional, o que torna os preceitos dessa moral intocados e inquestionáveis. Em contrapartida, é uma moral que disfarça a antipatia da vida e que tem como mote uma vida degenerada em que a diferença e a afirmação são substituídas pela igualdade e pela negação. O escravo, por ser considerado um desprezível, avalia sua realidade a partir de seu tipo de vida decadente. Para Nietzsche, remover a máscara é algo necessário e se faz pela identificação da moral que prescreve um valor como valor. Com esse desmascaramento é possível de se determinar qual o valor dos valores. É o absolutizar dos valores e considerá-los como supremos, supervalorizando-os acima de qualquer outra perspectiva ou interpretação contrária.
Em Nietzsche notamos a percepção que tinha de que, mesmo que todos os valores e ideais considerados supremos anteriormente na história humana tenham se desvalorizado, a vida do homem continua. É certo que não vivemos sem referencial: precisamos de valores que sejam ponto de referência para nossas ações, afinal, não vivemos sozinhos, não vivemos isolados, por mais individualista que esta nossa sociedade queira se proclamar. Os valores, contudo, não se constituem num algo-em-si. São pontos de vista, são aquilo que, conforme uma perspectiva, colocam-se como preservação e progresso da vida.
Quando Nietzsche diz que Deus está morto, retira da sociedade toda e qualquer base de valoração. É necessário buscar, então, um novo parâmetro para os valores. Caso contrário, as pessoas vão se tornando cada vez mais materialistas, individualistas, mercantilistas. Não somos máquinas, tampouco somos meras mercadorias. A dignidade humana cada dia mais vem perdendo seu espaço e significado em nossas sociedades, em nossas vidas, em nossas relações.
Com sua obra, Nietzsche não só demonstra um gênio perturbado com as relações dos homens, mas também nos perturba, levando-nos a questionar os laços relacionais que todos temos. O intuito de a Genealogia da moral é o de despertar no leitor uma reflexão e uma ação mais consciente da realidade. Os valores necessitam ser repensados.
Para repensar os valores, é preciso que encontremos, agora, conceitos extremamente imparciais, desligando-nos de qualquer tipo de moral que aprisione. As morais baseadas em conceitos metafísicos tendem ao nada. Os valores tendem a se deteriorar e surgirem novos valores.
A proposta nietzschiana de um ideal ascético, um asceticismo diferente do propagado pelos religiosos, é aquele que coloca o homem no centro. A finalidade desse ideal está nas ações humanas que se baseiam tão somente nas suas relações, não mais com a vontade divina. Essa proposta de Nietzsche é radical. Traz uma mudança essencial das tendências que nos leva a uma antítese.
A salvação deve ser procurada em outra parte. A obra, quando já elaborada, não necessita do artista para ser tomada a sério. Por isso, o filósofo nos leva às origens da moral, para, dali, partirmos para novos valores. Sem isso, o homem estará fadado a sempre encontrar o fracasso, os valores perderem seus sentidos (niilismo), já que transitamos entre os valores de acordo com nossas necessidades.
Fica-nos, neste momento, uma questão: Nietzsche realmente inverteu os valores com algum saldo positivo ou, ao contrário, sua posição não passa de um niilismo destrutivo levado às ultimas consequências? Nietzsche concebe o que ele chama de vontade de potência, que é a superação do niilismo. A metafísica da vontade de potência parece ser a superação do niilismo, uma vez que este é pensado como apenas uma derrubada dos valores supremos.
Nietzsche nos abre os olhos da razão e dos sentimentos para algo mais chão, mais próximo da realidade humana. Resgatar as origens da moral do homem é resgatar a ele próprio, colocando-o em sua dignidade de igualdade. As classes existentes apenas distanciam os homens uns dos outros. Parece até mesmo que Nietzsche pressentia, ou intuía, toda a sociedade contemporânea em que vivemos hoje. Dia após dia, o homem vai se tornando mais solitário, mais fechado em seu mundo individual, perdendo valores, esvaziando-se. Nisso tudo, cada vez mais se perde o sentido da vida, a finalidade das coisas. Tudo é efêmero, transitório. É a humanidade destruindo a própria humanidade.

Referências bibliográficas:

AZEREDO, Vânia Dutra. Nietzsche e a dissolução da moral. São Paulo: Discurso; Ijuí: Unijuí, 2000.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: Um escrito polêmico. Trad. Paulo César Souza. São Paulo: Brasiliense, 1987.

___________. Além do bem e do mal: Prelúdio a uma filosofia do futuro. Trad. Paulo César Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.





Deus e o homem segundo Sartre
Paulo Leandro Maia
Mestrando em Filosofia –PUC/SP


O existencialismo sartreano sofreu influências de Husserl, Heidegger, Jaspers e Max Scheler, dentre outros, chegando até as obras de Kierkergard (1813 – 1855). Na nova atitude, o filósofo de carne e osso se inclui a si mesmo no pensar, que até então se propunha objetivamente e distanciado vivido.
Jean Paul Sartre (1905 – 1890), escreveu O Ser e o Nada, sua principal obra filosófica, em  1943. Mas em 1938 já havia publicado o romance A Náusea. Seu pensamento é muito conhecido e gerou, inclusive uma “moda existencialista”, também pelo fato de ele ter se tornado famoso romancista e teatrólogo.
Sartre revolucionou a compreensão de muitos conceitos. Abordaremos algumas conceituações fundamentais para se compreender sua visão a respeito do homem. Segundo a concepção tradicional, a essência do homem precede a existência. Não é essa, no entanto, a posição de Sartre. E sendo ateu, não aceita a concepção de criação divina a partir de um modelo. Por isso especifica que, ao contrário das coisas e animais, no homem a existência precede a essência, e isso significa: “Que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e quer só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista (Sartre), se não é definivel, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência; o homem não é mais que o que ele faz. Tal é o primeiro do existencialismo”.
Qual a diferença entre o homem e as coisas? É que só o homem é livre. O homem nada mais é do que o seu projeto. A palavra projeto significa, etimologicamente, ser lançado “adiante”, assim como o sufixo ex da palavra existir significa “fora”. Ora, só o homem existe, porque o existir do homem é “para si”, ou seja, sendo consciente, o homem é uma “ser-para-si”, pois a consciência é auto-reflexiva, pensa sobre si mesma, é capaz de pôr-se “fora de si”.
Portanto, a consciência do homem o distingue das coisas e dos animais que são “em si"” ou seja, como não são conscientes de si, também não são capazes de colocar “ do lado de fora” para se auto examinarem. O que acontece ao homem quando se percebe “para si”, aberto à possibilidade de construir ele próprio a sua existência? Descobre, que não havendo essência ou modelo para lhe orientar o caminho, seu futuro se encontra disponível e aberto, estando portanto de Dostoiévski em os Irmãos Karamazov: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”, para relembrar que os valores não são dados nem por deus nem pela tradição: só o próprio homem cabe inventá-los. Se o homem é livre, é conseqüentemente responsável  por tudo aquilo que escolhe e faz. A liberdade só possui significado na ação, na capacidade do homem de operar modificações no real.
O homem não é “em si”, ele é “para si”, que a rigor não é nada, pois se a consciência não tem conteúdo, não é coisa alguma. Mas esse vazio é justamente  a liberdade fundamental do “para si”, que, movendo-se através das possibilidades, poderá criar-lhe conteúdo. Eis que o homem, ao experimentar a liberdade,  e ao sentir-se como um vazio, vive angustia da escolha. Muitas pessoas não suportam essa angustia, fogem dela, aninhando-se na má-fé. A má fé é a atitude característica do homem que finge escolher, sem na verdade escolher. Imagina que seu destino está traçado, que os valores são dados; aceitando as verdades exteriores, mente para si mesmo, simulando ser ele próprio o autor dos seus próprios atos já que aceitou sem criticas os valores dados. “O ser humano não é somente o ser pelo qual se revelar negatividade no mundo. É também o que pode tomar atitudes negativas com relação a si.”
O homem sartreano é desamparado, sem presente, sem chão, voltado para o passado buscando um futuro a ser construído. Sua moral é da escolha, pois segundo Sartre: O homem é livre para agir, para engajar-se na luta pela vida da qual o próprio homem é contingente.
Diante de um período de descrença de valores, hipocrisia da burguesia, Sartre investiga que ele é, quem são os homens e qual o sentido da vida?
Para Sartre o homem vive de escolhas, e são através dessas escolhas, dependendo de qual escolha  fizer, é que o homem vai manifestar a sua presença dentro do mundo. O homem primeiramente existe, e durante o processo de sua existência, ele se torna e vai construindo a essência, ou seja, a existência precede a essência, a essência é um construtor humano. Com isso, Sartre quer dizer que o homem é uma construção que se faz mediante a liberdade, a qual é fruto da sua escolha. “ Quando nasce, o homem é nada. Não existem ideias inatas, anteriores ao surgimento do homem  e destinadas a orientar sua vida, indicando que caminho ele deve seguir. As ideias, o homem extraí de sua experiência pessoal. O indivíduo primeiramente existe; torna-se isto ou aquilo, quer dizer, adquire sua essência”.
O homem deve ser inventado todos os dias, sintetiza Sartre.
É através da liberdade que o homem escolhe o que há de ser, escolha sua essência e busca realizá-la. É a escolha  que  faz entre as alternativas com que se defronta que constitui sua essência. E é essa escolha que lhe permite criar seus valores. Não há como fugir a essa escolha, pois mesmo a recusa em escolher já é uma escolha. Ao escolher, o homem escolhe sua essência e realiza.
Como se processa a aquisição dessa essência? Justamente através das nações de projeto e de escolha, já mencionadas antes. Se o homem primeiramente, não sendo nada a principio, se a ideia de Deus é eliminada, se cada instante o homem primeiramente existe, se cada instante o homem tem de escolher aquilo que vai ser, então só a ele cabe  criar valores sob os quais dirigirá sua vida. Criando-os, torna-se responsável por tudo que fizer. O homem, conforme Sartre, não é nada mais que o seu projeto, só existe na medida em que o realiza através da série de seus atos. Se, no homem a essência precedesse a existência, ele não poderia ser livre, pois desde o princípio sua vida estaria predeterminada. O sucesso ou o fracasso dos atos do homem é sua obra; não lhe é permitido culpar os outros ou as circunstâncias pelos seus erros.
O mundo é opaco. O homem é definido por suas ações, e o destino está em sua ação que permite que ele viva.
Quanto do cogito, Sartre diz que o ponto de partida não pode existir a obridade. A verdade absoluta é o fato do homem aprender a si mesmo ser um intermediário.
Quando o homem se descobre, quando ele se compreende, ele não se prostitui, pois à medida que se encontra, o homem também encontra o outro. A liberdade do homem começa onde começa a do outro e não termina onde começa a do outro.
É no mundo que o homem descobre o que ele é e o que são os outros homens, então não é uma subjetividade de relações, mas de relação. A verdade é dada pelo sujeito que pensa. Quando o homem se compreende, não o faz de maneira isolada, mas na relação com o outro. O homem não existe sem os outros homens (eu não existo sem o outro), e o humanismo é isso, um descobrindo o outro. Para Sartre os projetos humanos são diferentes, mas o que os torna iguais, é que existe uma universalidade entre eles e podem ser entendidos porque são maneiras de lidar com o mundo, de manifestar a existência dele e do outro no mundo. Podemos assim compreender toda a forma de cultura.
A coerência do homem está no momento que ele coloca os valores em vida e só depois é que ele pode julgar. Construímos nós mesmos, na medida que agimos, na media em que o ético se reflete na ação, onde aquilo que o homem é, aquilo que ele faz e não fala, e que seu discurso se não for referendado pela prática estará agindo de má fé. A ética só é realidade na ação, no viver, “Tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber, a salvação esta na ação do homem”.
O homem só acontece na vida moral, escolhendo a uma moral. Ao buscar um projeto que está na possibilidade de superação de si próprio é que o homem se realiza.
Para Sartre o homem vai além, superando-se. O existencialismo não é um ateísmo engajado que se preocupa, mediante a ação do homem que se preocupa em provar a não existência de Deus, mas que se preocupa mediante a ação do homem que é o humanismo. “O existencialismo é uma moral da ação, porque considera a única coisa que define o homem, é o seu ato. Ato livre por excelência, mesmo que o homem sempre esteja situado em determinado tempo ou lugar. Não importa o que as circunstâncias fazem do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele”.
Para Sartre o importante não é se Deus existe ou não, mas sim entender e compreender o homem e sua humanidade em seu existir no mundo, mediante a sua ação frente a si e ao outro.


Fonte:
http://www.paradigmas.com.br/parad09/p6.9.htm. Acesso em 03/02/2013.



Bioética
Débora Carvalho Meldau


A bioética é a ética aplicada à vida e, abrange temas que vão desde uma simples relação interpessoal até fatores que interferem na sobrevivência do próprio planeta. Dentro da medicina veterinária, este termo está intimamente ligado à noção de bem-estar animal. O termo bioética foi utilizado pela primeira vez no ano de 1970, por um médico oncologista chamado van Rensselaer Potter.

As principais razões para seu surgimento foram:

·         Abusos na utilização de animais e seres humanos em experimentos;
·         Surgimento acelerado de novas técnicas desumanizantes que apresentam questões inéditas, como por exemplo, clonagem de seres humanos;
·         Percepção da insuficiência dos referenciais éticos tradicionais, pois devido ao rápido progresso científico, torna-se fácil constatar que os códigos de ética ligados a diferentes profissões não acompanharam o rápido progresso científico, sendo diversas vezes insuficientes para julgar os temas polêmicos da bioética.

O emprego de descobertas científicas pode, muitas vezes, afetar positiva ou negativamente a sociedade ou até mesmo o planeta. Deste modo, a análise das vantagens e desvantagens do emprego de uma determinada tecnologia ou da realização de certos experimentos deve ser avaliada por comitês formados por indivíduos de diversas formações. Sendo assim, pode ser percebido que a bioética envolve profissionais das seguintes áreas:
·         Tecnociências (medicina, veterinária e biologia);
·         Humanidades (filosofia, teologia, psicologia e antropologia);
·         Ciências sociais (economia e sociologia);
·         Direito;
·         Política.

Os princípios básicos da bioética são três:

·         Autonomia ou princípio da liberdade: ele se baseia no fato de que na relação médico-paciente, este último possui o direito de ser informado sobre seu estado de saúde, detalhes do tratamento a ser prescrito e tem toda a liberdade de decidir se irá ou não se submeter ao tratamento determinado. Caso o paciente não possa decidir, os pais ou responsáveis é que tomam a decisão. Em casos de experimentos conduzidos com seres humanos, os indivíduos submetidos aos testes devem receber detalhes dos procedimentos a serem adotados e dar uma autorização, por escrito, de que deseja participar da pesquisa. Na medicina veterinária, como o animal não pode tomar essa decisão, cabe ao médico veterinário fornecer todas as informações sobre o animal e possíveis tratamentos e obter a autorização do proprietário para a realização dos procedimentos.
·         Beneficência ou princípio da não-maleficência: toda e qualquer tecnologia deve trazer benefícios para a sociedade e jamais causar-lhe malefícios. É fato nos dias de hoje, que a bioética está mais relacionada aos seres humanos do que aos animais, pois a maior parte dos experimentos existentes visa beneficiar o homem e não os animais.
·         Justiça distributiva: os avanços técnico-científicos devem beneficiar a sociedade como um todo e não apenas alguns grupos privilegiados.


A bioética divide-se em dimensões, também conhecidas como grandes áreas de estudo da bioética, que são:
 ·         Dimensão pessoal: estuda a relação entre os profissionais responsáveis e seus pacientes. A liberdade do indivíduo ou responsável pelo indivíduo deve ser respeitada;
·         Dimensão social, econômica e política: tem como objetivo estabelecer critérios para que seja determinada a alocação e distribuição de recursos, bem como tentar reduzir as diferenças econômicas e sociais dentro de um país ou entre países. Dentre os diferentes assuntos que são abordados nessa área da bioética, destacam-se: alocação de recursos financeiros; patentes; desequilíbrio entre países ricos e pobres e fome;
·         Dimensões ecológicas: os principais temas que fazem parte da pauta de discussão da bioética no campo da ecologia são proteção ao meio ambiente, exploração dos recursos naturais, desertificação, poluição, extinção de espécies, equilíbrio ecológico, utilização de animais e plantas em condições éticas, proteção da qualidade de vida dos animais, desequilíbrio entre países ricos e pobres, problemas nucleares e proteção da biodiversidade;
·         Dimensão pedagógica: trata-se da discussão de alternativas que visem uma melhora no ensino e aprendizagem nas instituições;
·         Dimensões biológicas ou bioética especial: dentro deste grupo da bioética, destacamos o começo da vida, o diagnóstico pré-natal, o abortamento provocado, a reanimação do recém-nascido, a engenharia genética e organismos geneticamente modificados, terapia gênica, eugenia, reprodução medicamental assistida, clonagem, transplante de órgãos, experimentação animal e em humanos, eutanásia e distanásia.


A importância das discussões em bioética, em razão do seu caráter transdisciplinar, é fazer com que a ciência não utilize indiscriminadamente as novas tecnologias logo que se tornem viáveis, mas somente apenas após possuir o conhecimento e a sabedoria suficientes para utilizá-las em benefício da humanidade e não em seu detrimento. Nesse sentido, a bioética permitirá que a sociedade decida sobre as tecnologias que lhe convêm.


Fonte:
http://www.infoescola.com/medicina/bioetica/. Acesso em: 03/02/2013.

28 de janeiro de 2013

Ritos corporais entre os Nacirema



              Colégio Estadual Colina Azul

          Disciplina: Sociologia      Profª: Ariane Marzzio

          3º série do Ensino Médio

I Bimestre
Conceito antropológico de cultura: a desnaturalização dos costumes.

Ritos corporais entre os Nacirema

Horace Miner In: A.K. Rooney e P.L. de Vore (orgs) YOU AND THE OTHERS - Readings in Introductory Anthropology (Cambridge, Erlich) 1976.

O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das formas de comportamento que diferentes povos apresentam em situações semelhantes, que é incapaz de surpreender-se mesmo em face dos costumes mais exóticos. De fato, se nem todas as as combinações logicamente possíveis de comportamento foram ainda descobertas, o antropólogo bem pode conjeturar que elas devam existir em alguma tribo ainda não descrita.
Deste ponto de vista, as crenças e práticas mágicas dos Nacirema apresentam aspectos tão inusitados que parece apropriado descrevê-los como exemplo dos extremos a que pode chegar o comportamento humano. Foi o Professor Linton, em 1936, o primeiro a chamar a atenção dos antropólogos para os rituais dos Nacirema, mas a cultura desse povo permanece insuficientemente compreendida ainda hoje.
Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e os Tarahumare do México, e os Carib e Arawak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos Nacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem  à sua nação; ele é, por outro lado, conhecido por duas façanhas de força: ter atirado um colar de conchas, usado pelos Nacirema como dinheiro, através do rio Po- To- Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residiria o Espírito da Verdade. 
A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evolui em um rico habitat. Apesar do povo dedicar muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável porção do dia são dispensados  em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde surgem como o interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse não seja, por certo, raro, seus aspectos cerimoniais e a filosofia a eles associadas são singulares. 
A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que sua tendência natural é para a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas características através do uso das poderosas influências do ritual e do cerimonial. Cada moradia tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos desta sociedade têm muitos santuários em suas casas e, de fato, a alusão  à opulência de uma casa, muito frequentemente, é feita em termos do número de tais centros rituais que possua. Muitas casas são construções de madeira, toscamente pintadas, mas as câmeras de culto das mais ricas têm paredes de pedra. As famílias mais pobres imitam as ricas, aplicando placas de cerâmica  às paredes de seu santuário. 
Embora cada família tenha pelo menos um de tais santuários, os rituais a eles associados não são cerimônias familiares, mas sim cerimônias privadas e secretas. Os ritos, normalmente, são discutidos apenas com as crianças e, neste caso, somente durante o período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios. Eu pude, contudo, estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santuários e obter descrições dos rituais. 
O ponto focal do santuário é uma caixa ou cofre embutido na parede. Neste cofre são guardados os inúmeros encantamentos e poções mágicas sem os quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Tais preparados são conseguidos através de uma serie de profissionais especializados, os mais poderosos dos quais são os médicos-feiticeiros, cujo auxilio deve ser recompensado com dádivas substanciais. Contudo, os médicos-feiticeiros não fornecem a seus clientes as poções de cura; somente decidem quais devem ser seus ingredientes e então os escrevem em sua linguagem antiga e secreta. Esta escrita é entendida apenas pelos médicos-feiticeiros e pelos ervatários, os quais, em troca de outra dadiva, providenciam o encantamento necessário. Os Nacirema não se desfazem do encantamento após seu uso, mas os colocam na caixa-de-encantamento do santuário doméstico. Como tais substâncias mágicas são especificas para certas doenças e as doenças do povo, reais ou imaginárias, são muitas, a caixa-de-encantamentos está geralmente a ponto de transbordar. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas esquecem quais são suas finalidades e temem usá-los de novo. Embora os nativos sejam muito vagos quanto a este aspecto, só podemos concluir que aquilo que os leva a conservar todas as velhas substâncias é a ideia de que sua presença na caixa-de-encantamentos, em frente à qual são efetuados os ritos corporais, irá, de alguma forma, proteger o adorador. 
Abaixo da caixa-de-encantamentos existe uma pequena pia batismal. Todos os dias cada membro da família, um após o outro, entra no santuário, inclina sua fronte ante a caixa-de-encantamentos, mistura diferentes tipos de águas sagradas na pia batismal e procede a um breve rito de ablução. As águas sagradas vêm do Templo da Água da comunidade, onde os sacerdotes executam elaboradas cerimônias para tornar o líquido ritualmente puro. 
Na hierarquia dos mágicos profissionais, logo abaixo dos médicos-feiticeiros no que diz respeito ao prestígio, estão os especialistas cuja designação pode ser traduzida por "sagrados-homens-da-boca". Os Nacirema têm um horror quase que patológico, e ao mesmo tempo fascinação, pela cavidade bucal, cujo estado acreditam ter uma influência sobre todas as relações sociais. Acreditam que, se não fosse pelos rituais bucais seus dentes cairiam, seus amigos os abandonariam e seus namorados os rejeitariam. Acreditam também na existência de uma forte relação entre as características orais e as morais: Existe, por exemplo, uma ablução ritual da boca para as crianças que se supõe aprimorar sua fibra moral. 
O ritual do corpo executado diariamente por cada Nacirema inclui  um rito bucal. Apesar de serem tão escrupulosos no cuidado bucal, este rito envolve uma prática que choca o estrangeiro não iniciado, que só pode considerá-lo revoltante. Foi-me relatado que o ritual consiste na inserção de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca juntamente com certos pós mágicos, e em movimentá-lo então numa série de gestos altamente formalizados. Além do ritual bucal privado, as pessoas procuram o mencionado sacerdote-da-boca uma ou duas vezes ao ano. Estes profissionais têm uma impressionante coleção de instrumentos, consistindo de brocas, furadores, sondas e aguilhões. O uso destes objetos no exorcismo dos demônios bucais envolve, para o cliente, uma tortura ritual quase inacreditável.  O sacerdote-da-boca abre a boca do cliente e, usando os instrumentos acima citados, alarga todas as cavidades que a degeneração possa ter produzido nos dentes. Nestas cavidades são colocadas substâncias mágicas. Caso não existam cavidades naturais nos dentes, grandes seções de um ou mais dentes são extirpadas  para que a substância natural possa ser aplicada. Do ponto de vista do cliente, o propósito destas aplicações é tolher a degeneração e atrair amigos. O caráter extremamente sagrado e tradicional do rito evidencia-se pelo fato de os nativos voltarem ao sacerdote-da-boca ano após ano, não obstante o fato de seus dentes continuarem a degenerar.
Esperemos que quando for realizado um estudo completo dos Nacirema haja um inquérito cuidadoso sobre a estrutura da personalidade destas pessoas, Basta observar o fulgor nos olhos de um sacerdote-da- boca, quando ele enfia um furador num nervo exposto, para se suspeitar que este rito envolve certa dose de sadismo. Se isto puder ser provado, teremos um modelo muito interessante, pois a maioria da população demonstra tendências masoquistas bem definidas. 
Foi a estas tendências que o Prof. Linton (1936) se referiu na discussão de uma parte específica dos ritos corporal que é desempenhada apenas por homens. Esta parte do rito envolve raspar e lacerar a superfície da face com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos  têm lugar apenas quatro vezes durante cada mês lunar, mas o que lhes falta em frequência é compensado em barbaridade. Como parte desta cerimônia, as mulheres usam colocar suas cabeças em pequenos fornos por cerca de uma hora. O aspecto teoricamente interessante é que um povo que parece ser preponderantemente masoquista tenha desenvolvido especialistas sádicos. 
Os médicos-feiticeiros têm um templo imponente, ou latipsoh, em cada comunidade de certo porte. As cerimônias mais elaboradas, necessárias para tratar de pacientes muito doentes, só podem ser executadas neste templo. Estas cerimônias envolvem não apenas o taumaturgo, mas um grupo permanente de vestais que, com roupas e toucados específicos, movimentam-se serenamente pelas câmaras do templo. 
As cerimonias latipsoh são tão cruéis que é de surpreender que uma boa proporção de nativos realmente doentes que entram no templo se recuperem. Sabe-se que as crianças pequenas, cuja doutrinação ainda é incompleta, resistem  às tentativas de levá-las ao templo, porque "é lá que se vai para morrer". Apesar disto, adultos doentes não apenas querem mas anseiam por sofrer os prolongados rituais de purificação, quando possuem recursos para tanto. Não importa quão doente esteja o suplicante ou quão grave seja a emergência, os guardiões de  muitos templos não admitirão um cliente se ele não puder dar uma  dádiva valiosa para a administração. Mesmo depois de ter-se conseguido a admissão, e sobrevivido às cerimônias, os guardiães não permitirão ao neófito abandonar o local se ele não fizer outra doação. 
O suplicante que entra no templo é primeiramente despido de todas as suas roupas. Na vida cotidiana o Nacirema evita a exposição de seu corpo e de suas funções naturais. As atividades excretoras e o banho, enquanto parte dos ritos corporais, são realizados apenas no segredo do santuário doméstico. Da perda súbita do segredo do corpo quando da entrada no latipsoh, podem resultar traumas psicológicos. Um homem, cuja própria esposa nunca o viu em um ato excretor, acha-se subitamente nu e auxiliado por uma vestal, enquanto executa suas funções naturais num recipiente sagrado. Este tipo de tratamento cerimonial é necessário porque os excreta são usados por um adivinho para averiguar o curso e a natureza da enfermidade do cliente. Clientes do sexo feminino, por sua vez, têm seus corpos nus submetidos ao escrutínio, manipulação e aguilhadas dos médicos-feiticeiros. 
Poucos suplicantes no templo estão suficientemente bons para fazer qualquer coisa além de jazer em duros leitos. As cerimônias diárias, como os ritos do sacerdote-da-boca, envolvem desconforto e tortura. Com precisão ritual as vestais despertam seus miseráveis fardos a cada madrugada e os rolam em seus leitos de dor enquanto executam abluções, com os movimentos formais nos quais estas virgens são altamente treinadas. Em outras horas, elas inserem bastões mágicos na boca do suplicante ou o forçam a engolir substâncias que se supõe serem curativas. De tempos em tempos o médico-feiticeiro vem ver seus clientes e espeta agulhas magicamente tratadas em sua carne. O fato de que estas cerimônias do templo possam não curar, e possam mesmo matar o neófito, não diminui de modo algum a fé das pessoas no médico feiticeiro. 
            Resta ainda um outro tipo de profissional, conhecido como um "ouvinte". Este "doutor-bruxo" tem o poder de exorcizar os demônios que se alojam nas cabeças das pessoas enfeitiçadas. Os Nacirema acreditam que os pais enfeitiçam seus próprios filhos; particularmente, teme-se que as mães lancem uma maldição sobre as crianças enquanto lhes ensinam os ritos corporais secretos. A contra-magia do doutor bruxo é inusitada por sua carência de ritual. O paciente simplesmente conta ao "ouvinte" todos os seus problemas e temores, principalmente pelas dificuldades iniciais que consegue rememorar. A memória demonstrada pelos Nacirema  nestas sessões de exorcismo é verdadeiramente notável. Não é incomum  um paciente deplorar a rejeição que sentiu, quando bebê, ao ser desmamado, e uns poucos indivíduos reportam a origem de seus problemas aos feitos traumáticos de seu próprio nascimento. 
Como conclusão, deve-se fazer referência a certas práticas que têm suas bases na estética nativa, mas que decorrem da aversão profunda ao corpo natural e suas funções. Existem jejuns rituais para tornar magras pessoas gordas, e banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras. Outros ritos são usados para tornar maiores os seios das mulheres que os têm pequenos e torná-los menores quando são grandes. A insatisfação geral com o tamanho do seio é simbolizada no fato de a forma ideal estar virtualmente além da escala de variação humana. Umas poucas mulheres, dotadas de um desenvolvimento hipermamário quase inumano, são tão idolatradas que podem levar uma boa vida simplesmente indo de cidade em cidade e permitindo aos embasbacados nativos, em troca de uma taxa, contemplarem-nos. 
Já fizemos referência ao fato de que as funções excretoras são ritualizadas, rotinizadas e relegadas ao segredo. As funções naturais de reprodução são, da mesma forma, distorcidas. O intercurso sexual é tabu enquanto assunto, e é programado enquanto ato. São feitos esforços para evitar a gravidez, pelo uso de substâncias mágicas ou pela limitação do intercurso sexual a certas fases da lua. A concepção é na realidade, pouco frequente. Quando grávidas as mulheres vestem-se de modo a esconder o estado. O parto tem lugar em segredo, sem amigos ou parentes para ajudar, e a maioria das mulheres não amamenta seus rebentos. 
Nossa análise da vida ritual dos Nacirema certamente demonstrou ser este povo dominado pela crença na magia. É difícil compreender como tal povo conseguiu sobreviver por tão longo tempo sob a carga que impôs sobre si mesmo. Mas até costumes tão exóticos quanto estes aqui descritos ganham seu real significado quando são encarados sob o ângulo relevado por Malinowski, quando escreveu:
"Olhando de longe e de cima de nossos altos postos de segurança na civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia. Mas sem seu poder de orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como o fêz, suas dificuldades práticas, nem poderia ter avançado aos estágios mais altos da civilização".